Sobre a Paciência

Parece que tudo voltou quase ao normal, as máquinas já estão reativadas, os atrasos sendo atualizados.Amanhã estou de volta aqui, full power, pra queimar a sua boca, seu coração e sua cabeça também. Fui comprar especiarias e ervas e segredinhos de culinariasta pra fazer um vindaloo   especial pra você. Estou morrendo de saudade mas é questão de tempo e de exercitar a paciência, virtude superior que alimenta a alma, como a música.Será que vc aguenta esperar por mim , ou ainda e de novo, Mate Kudasai ! muitos bjs_II_

 



Escrito por amita às 13h22
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O Mundo da Música e a Música do Mundo

 

Essa coisa de world music  é mesmo estranha. Eu nunca vi música como algo restrito, muito pelo contrário. Já até comentei aqui que se há alguma coisa absolutamente universal, que independe de idioma, cultura e tal é música. Claro que classificar por gênero, estilo é estratégia da indústria fonográfica cujo objetivo a gente sabe muitíssimo bem qual é, e nada tem a ver com a intenção e grandiosidade da música propriamente dita. Isso de organizar em compartimentos, como a gente faz com os arquivos do computador é nivelar por baixo, é fazer do sagrado, medíocre. Imagina só alguém dizer que eu, por exemplo, estou sob a classificação de aquela mulher que escreve um blog , ou você, aquele leitor do blog tal. É muito redutor e limitado, não é não? Dizer que um artista pode ser classificado nesta ou naquela categoria é pequeno demais pra minha cabeça que pensa grande e voa alto. Sou muito mais uma pessoa adepta ao E do que ao OU. Quando preparo meu curry Vindaloo o que mais uso é   E, porque gosto de adicionar, de fazer upgrade na vida.

Voltando um pouquinho à questão da world music, uma das coisas bacanas na Europa é a oportunidade do encontro de culturas deferentes num mesmo país. Infelizmente causada por motivos colonialistas, mas como eu vejo sempre o lado bom em tudo, taí a chance que a mesma Europa que maltratou e ainda maltrata tantas ex-colônias, deixar “essa gente bronzeada mostrar seu valor”, como diriam os Novos Bahianos. E a Bahia está presente e muito na Europa. Os bahianos da França, por exemplo, vêm do norte da África, e contribuem muitíssimo para que o país dos queijos (minha maior paixão gastronômica  assumida), vinhos (outra paixão, pq não), e perfumes (estes não me apaixonam) seja menos chato. Já na década de 50 houve a influência do jazz em Paris. Mas não vivi isso, ainda não estava por aqui na forma de hoje. Na década de 80 que surgiu essa história de World Music na Europa, provavelmente porque eles sacaram também que a música da África, do Brasil, do Iran, do Tibet, enfim, de países “pobres” é muito rica mesmo, fala mais alto que conta bancária, que G7 e o scambow, entra no coração de qualquer um. A habilidade e proximidade com a música parece mesmo ser mais fina para quem se concentrar mais em ser do que em ter. É quase um conceito religioso esse de que o desapego. até por falta no que se apegar, engrandece a musicalidade. Sei que isso aqui dá pano pra manga, mas o SPFW já acabou, não sei costurar (ainda), então deixa pra lá. Milhões de músicos e seus trabalhos superiores estão sussurrando no meu ouvido pedindo para entrar aqui, mas não tem lugar pra todo mundo num texto só. Escolhi o CD que estou ouvindo Angélique Kidjo. Mil cantoras numa só, tenho inveja boa dela, de suas vozes que cantam Hendrix, Gil, e as peças da própria Kidjo, que tem suporte e orientação e aplauso de , dentre outros, Cassandra Wilson, outra colecionadora de interpretações grandiosas. Angélique é sonoramente divina, plasticamente belíssima, como é tão bela a Refavela com ela, um anjo celestial. E como anjo não tem cor nem sexo, também não tem país, cidadania, passaporte. Angélique é como nossos músicos do Brasil, é do Mundo. E one world is enough for all of us!!.bjs_II_  ps: e por falar em música do mundo, tem show dos meninos do Intergalize no Domingo, no Caretas ( Aspicuelta, 208), a partir das 19.00. Olha o link deles aí ao lado.

 

 



Escrito por amita às 10h37
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Gosto muito de vermelhos

 

Ele tem um ar esquizo, olhar fixo no longe, quase catatônico (no palco e provavelmente fora dele), uma dinâmica meio paranóide. Esse jeitão dele, circunspeto, esconde sua capacidade sem limites, sua destreza. O que será que ele pensa quando toca, quando escreve aqueles riffs de sonoridade inconfundível e inimitável? Nem sei se ele pensa,  porque Robert Fripp parece estar além dessa classificação, vou chamar assim, intelectual. Acho seu som milimetricamente calculado, expressão quase matemática de emoção, música cerebral. Quando Fripp pluga a guitarra no amplificador, senta (é isso mesmo, ele não é João Gilberto mas gosta de tocar apoiado no banquinho) e daí pra frente só mexe os dedos. Mãos, braços, pernas, cabeça, cílios,língua dentro da boca, nada mais mexe.  Notas na guitarra com textura finamente expandida, com efeitos de pedais que geram música atmosférica, hipnótica, como na recitação de mantras.E junto com outros integrantes do King Crimson- banda que ilustra termo progressivo muito bem, ícone de mentes psicologicamente comprometidas em intensidade riquíssima - me levam pra um outro nível, fico siderada, ligada no 330V. Uma das peças do King Crimson que provoca isso em mim é Thela Hun Ginjeet, um anagrama da frase Heat the Jungle, um funk batido meio paranóico na voz de Adrian Belew, outra figura singular, muito mais solto que o Fripp, ( solto não, saltitante literalmente). Thela Hun Ginjeet me joga no teto, percebo nitidamente uma revolução molecular por dentro, uma correria, uma descarga elétrica sincopada, bem marcada, dá até pra ver as veias pulando. Não posso ouvir tomando nada porque engasgo! Outra que me desorienta completamente, dá nó no meu cabelo liso, os olhos parecem que vão pular pra fora, é Elephant Talk, que já começa com o punch sem igual do Tony Levin ou sinônimo de  stick, uma espécie de baixo, um instrumento de 12 cordas que são coladas ao invés de presas, junto com isso tudo ainda tem a bateria do Bill Bruford, outro maluco que tem baquetas mágicas que parecem varinhas de condão ( tks, e.), e faz de bumbo, pratos, cymbals, caixa, surdo um verdadeiro tufão! E quando acho que vou explodir, porque aja resistência inclusive física pra isso, eles vêm com uma balada com gosto de regozijo, de calmaria pós-tempestade, um banho de luminosidade, uma trégua pra repor as forças e começar tudo de novo. Como foi pra mim nesses dias, passos mais lentos que muita gente, e  ainda me refazendo digo: please, wait for me ou Matte Kudasai. King Crimson tem ingredientes básicos de música contrária à normalidade, lida com lados não muito conhecidos, de acesso difícil e restrito.Tanto é que a música de assinatura deles é do primeiro álbum, em 1969, e se chama The 21st Century Schizoid Man (Including Mirrors), além do som, o título também não muito comum naqueles dias. E o Fripp mais especificamente é quem instala essa linha esquizóide, porque ele esteve à frente da banda desde a formação original( que não contava com Belew ou Levin ou Bill Bruford) e por isso mesmo tão atraente  alucinadamente sedutora. Afinal, ninguém é muito normal mesmo. bjs_II_
ps: Leões, além de prata e bronze, também podem ser vermelhos, cor-de-rosa. Dá uma olhada aqui:  http://www.ericavalente.com.br/deskbazaar/    

 



Escrito por amita às 09h06
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Nothing’s gonna change my world

 

Across the universe  é o tema presente na minha cabeça desde cedo hoje. Deve ser influência da Internet que me liga across the universe, do festival de Cannes que mobiliza muita gente , indiretamente a mim também, across the universe (se depender de mim, meus queridos e. e André vão faturar mais alguns Leões), mas acima de tudo é a influência da música , a linguagem maior, que percorre o universo todo, sem tempo nem espaço, que me faz viajar mundo afora especialmente quando adentro não vejo muita luz, num dia como o de hoje. Meus  (des)acordes e tons parecem (des)encontrados, uns em clave de Sol outros em Dó, sem a devida correspondência, uns soando como Eric Satie, outros tantos como Shankar, alguns esparsos como Miles, um aqui outro lá longe como Villa-Lobos e Pixinguinha, bem no fundo e sempre presentes, estão Billie e Bird, com suas e almas lindas, infinitamente insanas,.e Harrisson dizendo Jay Guru  Devo. Enfim, um arranjo de orquestração que nem Bernstein nem Karabtchevsky conseguiríam reger sem muito estudo e ensaio.Como tudo passa, é provável que eu esteja bem diferente quando você ler esse post. Enquanto isso não acontece, fico repetindo, notas e  letra, hoje como um mantra mesmo, pra mandar esse sentimento circular  across the universe e voltar renovado porque independente do que está, minha essência é a mesma. Nothing’s gonna change my world. Ilustro com a imagem esplêndida de uma verdadeira Padma enviada com muito carinho e capricho pela e., que me sabe sem saber disso. bjs_II_

 



Escrito por amita às 10h05
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Meu caro amigo

 

Talvez não fosse assim que ele tinha imaginado inicialmente, mas acabou se apoiando literalmente no corpo do violão pra poder mostrar o que tinha pra dizer. Sorriso tímido e largo, um cara bem nascido, de família culta e letrada referência para a língua culta no Brasil e seus olhos, que desde menino chamavam atenção não só pela cor, pelo brilho, mas pelo que existe por trás deles.

Lembro do Chico Buarque quando lembro de mim mesma. Desde pequena interessada por palavras, (des)organizadas na harmonia, enfeites para melodia, palavras em sua essência, etimologia.  Ao mesmo tempo que aprendia na escola sobre a tônica das sílabas, ou seja, ritmo as palavras, sai o disco Construção, 1971, que eu ouvia o tempo todo em casa. Fiquei absolutamente fascinada com aquele cara que era tão inteligente, intelectualmente brilhante, métrica perfeita, versos que terminam com proparoxítonas (minhas favoritas) que se alternam, verbos e substantivos que se repetem, e mudam de sentido em cada estrofe. Que genial!No disco seguinte ele vem e me dá conselhos às avessas. Como assim aja duas vezes antes de pensar?devagar é que não se vai longe? Confesso que me atrapalhei ainda mais com sua capacidade de desconstrução. Momento muito turbulento na vida do Brasil, na minha também,adolescência nunca é lisa, pra ninguém, e ele vem e diz que quer ficar no corpo feito tatuagem, que beija até a alma se sentir beijada, e crava os dentes, roça a barba, faz rodeio e beija os seios, faz do meu corpo a sua casa. E como se não bastasse, Apesar de você, tenho acesso à letra original do O que será ( à flor da pele) ( a versão que passou foi à flor da terra, com o Milton), a letra mais vindaloo do Chico, de tremores e suores e de órgãos clamando, que ungüentos não remediam, nem cachaça sacia, que sobe às faces, aperta o peito, visceral até a morte, um desacato tamanha a intensidade! E o que você me diz do sangue que erra de veia e se perde? Do paletó que enlaça o vestido? De dar os olhos pro outro tomar conta?Da saudade que é o revés de um parto e que dói no membro amputado?

Chico definitivamente entende muito de mulher, mais que muitas de nós, sabe ler o que se passa na gente como poucos. Fala da mulher comum,que se descabela por amor, que sofre com traição, se agarra nos pelos, no pijama, arranha seu homem de raiva e chora no tapete atrás da porta. Da mesma mulher que também trai, que gosta de sexo por sexo, que se sabe bonita e cheirosa, que seduz sem tocar, que se faz de tonta e consegue o que quer, de mulher como a gente. Sua leitura do feminino é justa, linda, simples e sofisticada, apaixonantemente densa.

Chico é  um cara inteiro. Um burguês louco por futebol, por feijoada, por samba, um carioca.paulista.pernambucano.mineiro.baiano, brasileiro soberano do mundo. Quando pequeno dizia que seu sonho era ser escritor. E conseguiu! Fez bonito como ninguém. Chico para todos. Chico de todos. bjs _II_

 



Escrito por amita às 09h45
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Prato do dia: filé a Cubana

 

O tempo ontem parou.Fiquei emocionada logo de cara porque a casa estava lotada de gente pra ver Ibrahim Ferrrer, aos 77 franzino com sua boina e terno impecáveis, sua voz pequena gostosa cantando boleros irresistíveis. O show abre com o Buena Vista Social Club na versão que já não conta com Compay Segundo e Ruben González. Mal começaram a tocar e meus olhos ficaram cheio d’água, o nível de felicidade já subiu muito dentro dessa mulher que vos fala, bem cansada ontem, na noite anterior tinha dormido 4 horas apenas, ou seja, eu tava quase no osso já, um trapo. O som da Buena Vista é absolutamente redondo, sem uma rateada sequer, são 14 músicos que sabem muito bem o que estão fazendo, como mostrar o que tem de melhor na música cubana, que muito mais que merecidamente foi reaquecida  para o mundo graças do Ry Cooder, um americano atípico em muitas coisas, não só em  música, que vê longe e não fez nada além de nos dar a honra de ouvir os sons essenciais de Cuba. O naipe forte da banda é o dos sopros com trompetes, sax alto, tenor, flauta, trombone, além de dois percussionistas, um guitarrista econômico e eficiente, um baixão acústico lindo bem marcado, dois backing vocals afinadíssimo, com muita presença e dança no pódio, e o dono do show, Robertito Fonseca, pianista de muitas mãos, dedos ágeis e sensíveis que só de lembrar já fico toda arrepiada. Aí sim as lágrimas que ainda estavam na parte de dentro dos olhos rolaram rosto abaixo, a boca ficou seca, o coração batia numa velocidade que eu podia participar da fórmula kart ( se fosse a 1 eu não estaria aqui contanto pra você), as pernas trêmulas, enfim, sintomas típicos de ansiedade provocados por Robertito e su notas mágicas. Seu chapéu preto não deixava esconder seus olhos grandes,atentos e expressivos, talvez surpreso com a reação da platéia que logo na primeira chance o aplaudiu de pé, luzes acesas e tudo. Fiquei pensando no que ele pensava e na puta responsabilidade que deve ser substituir Ruben González, o pianista mito, o maior nome que Cuba já teve. Robertito me pareceu ser bem jovem, um rosto doce, e é bem óbvia a relação apaixonada que ele tem com o piano, cúmplice do compromisso com a música infinita que saía cada vez que uma tecla era acariciada, atingida com firmeza e assertividade. Sabe quando você acha que o piano tem mais teclas escondidas dentro da manga, especialmente das pretas, que as coradas lá dentro vão estourar a qualquer minuto? Não que ele sempre abusasse da quantidade de teclas e ficasse explorando o teclado inteiro, mas pela escolha de algumas inesperadamente colocadas no meio de outras. Eu tenho certeza que depois da noite de ontem a vida daquele piano nunca mais será a mesma. É sim, porque instrumento também sente, instrumento tem alma, sabe tudo, sabe quando você toca com amor, se tem respeito por ele ou não, se sente ciúmes, se é do tipo músico cachorro bandido. E ontem, se você me permite, aquele piano do palco do Via Funchal teve a melhor e mais inesquecível trepada da sua vida, deve estar no céu até agora porque Robertito Fonseca realmente é um talento sedutor, de cantada irresistível, aquele jeito tímido que a gente sabe, esconde um vulcão em erupção contínua. Se você acha que estou exagerando, vai lá hoje à noite (Goethe, dá tempo de vir. O show é às 22.00) ou saia caçando pra ouvir. E depois de recuperar as energias, quando parar de ofegar e todo o resto , passa aqui e me conta. Muchos besos _II_

 



Escrito por amita às 09h12
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Música pra acordar a alma

 

Muitas músicas me acompanham desde sempre quando acordo, seja do sono dormido, da noite de insônia,de um momento de silêncio, daqueles pra dentro que eu tenho, quando fico remexendo o que nem sempre conheço ou me dou conta. Preciso de um tempo pra receber,reconhecer e identificar emoções recém-nascidas, recém-chegadas, e também às velhas conhecidas que vivem em processo de recolocação, é um movimento que você nem acredita.  Como um fio compriiiiiiiiiiido cuja ponta fica emaranhada com outros, uma bagunça que gera nós de todos os tipos, desde os simples e básicos, até os que os alpinistas usam impossível de desfazer. Como nada é impossível, eu tento e consigo algumas vezes pelo menos afrouxar. Não tenho pressa, devagar vou desfazendo. Nessas canções, que funcionam como ragas da manhã – ragas são peças de musica clássica Indiana e devem ser executadas e ouvidas em determinados momentos do dia. Há as da manhã, as da noite, e assim por diante – encontro soluções harmônicas e melódicas que iluminam qualquer trilha, qualquer tom, lubrificam as cordas vocais e os nós mais difíceis, reaquecem as juntas dos dedos, reanimam o coração. 

Uma que causa em mim tudo isso e mais um pouco, me seduz completamente, me faz derreter, em qualquer versão  instrumental principalmente ou cantada também, que sempre me faz tremer e gemer em silêncio porque deixa as cordas suspensas no ar atônitas que ficam com sua beleza que nem vibram, é Nascente, do Flavio Venturini, letra do Murilo Antunes. A letra é linda, lindona sim, mas a melodia é de outro mundo, de arrasar, é milionária cheia de sobes e desces, de seqüências em que perder o fôlego é conseqüência sine qua non e  incontrolável, mais forte que eu, que você, de arrepiar e fazer chorar os olhos e o resto do corpo. Tanto que já foi gravada por muita gente, além do próprio Flávio no seu primeiro disco solo e num outro com o Toninho Horta (e nessa eu choro antes de ouvir, só de pensar). Outra versão sensacional é do Ed Motta, que sai de um grave subsolo e voa a muitos milhões de pés de altura. A quase que totalmente vocal da Jane Duboc, e sua voz suave afinadíssima, tão mal aproveitada eu acho. A do Ulisses Rocha com Marco Pereira, que fizeram um arranjo ilustrado com vibrato dos dedos nas cordas como que dizendo que não dá pra tocar sem tremer. E claro, lógico, evidentemente, sem duvida, sem tirar nem por, a imbatível  leitura o do Michael Brecker, que deve ter se acabado e praticamente inundado de suor, choro e gozo o seu sax quando gravou,  com uma ajudinha básica do solo divino do maiss que divino Pat Metheny, inspirado no arranjo que o Gil Evans fez para o  Miles no Miles Ahead, do suporte do baixo no Charlie Haden, a assistência caprichada das teclas do Herbie Hancock e marcação delicada do Jack DeJohnette. Nascente não é só de sol, de Let the sun shine in, é de fonte, de recurso interno primitivo, de repertório de vida, do que existe na outra ponta do fio, aquela que não enxergo sempre, da qual me esqueço, ou me esquivo às vezes com medo, mas sei que está lá. A minha se renova o tempo todo, sempre feliz com os novos feixes de som e de luz, e você é responsável por isso.. bjs _II_  ps1: vc já ouviu Nascente hoje? ps2: o sistema de comentários foi modificado L mas funciona. Se você quiser deixar o seu, clique no enviar uma só vez, espere um minutinho que dá tudo certo.

 



Escrito por amita às 08h08
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Cordas do desejo

 

Não, esse não é título de filme SM. É como eu estou me sentindo por não ter conseguido tocar no feriado como tinha planejado. Fiquei tão chateada

com isso q esmaltei as unhas de novo. Lidar com a frustração, admitir que há tantas coisas que eu gostaria de fazer e que não posso por diferentes motivos não é fácil. Exige um certo grau de abnegação, de paciência, de tolerância e coisas assim, nada bem vistas pelo desejo, porque este tem pressa, urgência de ser saciado, de se exibir, de extrapolar os limites, trazer o imaginário para o real.Enquanto eu treino virtudes que aparentemente vão contra o momento, lembrei de alguns discos onde os desejos de dois músicos se somam e se tornam imensos, potencializando o êxtase em dobro. Mesmo porque, por mais que o desejo seja um sentimento eminentemente egocêntrico, envolve outras pessoas que o alimentem ou possibilitem sua (sobre)vida ou plantem sementes que geram a necessidade da troca em benefício mútuo. E aí é o ponto. Aquele conceito de é dando que se recebe vale em tudo, na música também.

Durante muito tempo da minha vida dividi minhas cordas com uma mulher extraordinária, minha amiga maior, meu sangue, meu espelho, e com ela minha música tinha brilho único, que eu nunca mais consegui atingir depois que ela faleceu, 10 anos atrás. A intimidade que a gente conquista tocando com outra pessoa, os olhares que são trocados cujo significado existe somente ali, como em qualquer relação, deixa marcas de amor e plenitude que a gente carrega pra sempre.O disco que deu o pontapé inicial pra esse post é o Strings of Desire, de Andy Summers e Victor Biglione,1998, que vi ao vivo no antigo teatro Alfa, antes da mega reforma que o transformou num teatro magnífico, de acústica impecável, e preços exorbitantes, infelizmente. Mas é um lugar onde consigo ouvir e ver, sem a presença de cadeiras e mesas, layout que não me agrada nem um pouco. É um trabalho acústico delicado, de dois músicos que nunca tinham entrelaçado suas cordas, que vêm de culturas e backgrounds musicais distintos, mas sabem da grandeza da universalidade da música. A química rola com tamanha facilidade O repertório, bem cuidado, com Frevo, do Egberto, In You Own Sweet Way, do Dave Brubeck, Night in Tunísia, do Dizzy Gillespie q eu adoro, e tb My Favorite Things, numa vesão de impacto diferente das do Coltrane mas tb linda.Um encontro de músicos generosos,carinhosos entre si, sem disputa ou duelo. Do Victor Biglione não posso falar muito, não conheço seu trabalho a esse ponto. Do Andy Summers posso, não só pela participação no The Police , trazendo uma guitarra diferente do que se ouvia nas bandas da época, especialmente por influencia do jazz, mas também por outros trabalhos solo, em dois discos com o Robert Fripp, (um cara extremamente peculiar como ser humano e como músico também um gênio !). Strings of Desire  tem arranjos deliciosos. que fazem as pontas dos meus dedos se mexerem a procura daqueles 6 fios mágicos, vibradores de prazer inenarrável. Que se dane o esmalte das unhas! Poder tocar um instrumento é muito bom. Se você não toca, considere a hipótese. Você vai conhecer outros lados, ainda latentes, e vai adorar. Acredita em mim, vai! bjs _II_

 



Escrito por amita às 10h05
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