Música de monge

 

Um monge telúrico, esférico, recluso no encontro de si mesmo, envolvido e imerso em alucinações auditivas que lhe corriam pelos braços e chegavam nos dedos, massageavam as teclas do piano que refletia seu olhar vago sob o chapéu que , mais que adorno, servia como limite físico para que suas idéias fantásticas não lhe fugissem, também como escudo anti-paranóia garantindo que não lhe fossem subtraídas, sequestradas por quem nem teria categoria suficiente para viver toda a criatividade na bagunça organizada  inédita que só mesmo ele fazia com a notas.

Misterioso, Thelonious Sphere Monk entrou nos meus ouvidos rasgando meus tímpanos com a intensidade melancólica da ‘Round Midnight, foi de cara sugando meu estômago, desidratando minhas veias, rodando minha cabeça como pião,  assim como ele fazia com seu corpo, talvez para misturar bem suas idéias  num cocktail exclusivo e alcoolicamente recomendável para quem consegue sentir nos poros a desarmonia melodiosa de sua música. Depois veio Well, You Needn’t , não que eu precisasse de qualquer outra coisa para me deixar seduzir por aquela cabeça  que me rodeava de acordes soando antes ou depois do esperado, raramente na marca do comum.Thelonious cria adição, dependência químicaporque é substância inigualável. Claro, nada de mesmice e ordinário eu vejo no Thelonious que, como todo gênio, provoca sentimentos difíceis, por isso mesmo preciosos, tesouros que descubro cada vez que meu coração pede suas peças e daí me transporto para sei lá onde, que é exatamente o que preciso para fazer que o contágio se dê em prótons e elétrons, nunca em nêutrons – acho até que os átomos das minhas células musicais em especial têm nêutrons bem fraquinhos,  sou do tipo all or nothing at all .Thelonious também era assim, mesmo que não tivesse consciência disso e de tantas outras qualidades que carregava.Assim como a gente, que nem se dá conta da própria dimensão interna. De vez em sempre a gente precisa de um auto-encontro. Que tal você fazer o seu hoje mesmo quando for quase amanhã ? bjs_II_

 



Escrito por amita às 08h47
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Feed the world with rock’n’roll

 

Passos em marcha pra não atropelar ninguém, no caminho da estação até o estádio que já era como um mar onde eu só via costas e pernas, dada a minha estatura diminuta para os padrões Anglo-Saxões naquela manhã quente de julho. Calor sim ! Enganam-se os que dizem / acham que o tempo em Londres é sempre frio, chuvoso e cinza, tanto quanto dizer que Sampa é a cidade da garoa. Puro preconceito.

Por aqui ainda não era muito comum tanta comoção ao redor de causas sociais, que tocam o coração da gente porque fazem lembrar que todo mundo é feito da mesma matéria prima, o recheio muda um pouco, a embalagem também, mas a base da torta, a massa do bolo, as especiarias do curry, são as mesmas, my dear. Isso é uma das coisas que aprendi com rock’n’roll, música não exatamente complicada (Rock’n’roll não é só música, e por isso tem capítulo a parte mesmo), de acesso fácil aos ouvidos , bela na essência, na mensagem. Música do povo. Sabe aquele coisa comovente que todo mundo sente ( e vc não vai conseguir negar essa agora), quando ouve o hino nacional,aquela montanha de gente cantando com a voz embargada, olhos cheio d’água? Um concerto de rock em geral tem esse efeito em mim, um feeling comum em qq ser pensante com o requisito mínimo de humanidade. Assim foi o Live Aid, 1985, mega gig oraganizada pelo Bob Geldof que assisti pelas figuras que iam tocar em Londres e na Philadelphia ao mesmo tempo. Em tempos oficialmente antes da internet aquilo também era muito bacana, o mundo ainda não era tão pequeno e “globalizado” (não gosto de como tem sido usado esse conceito),como é hoje, tudo era distante e menos claro. Muito vil metal envolvido na história toda. Wembley tinha  status de Morumbi/ Maracanã, lugar de concentração de energia e paixão, semelhantes no futebol e na música ( do primeiro só repito o que vejo e ouço, não me comprometo ).

Durante todo o concerto me pego com aquele já conhecido nó na garganta,  sinto todo mundo em volta emocionado, como que se dando conta da película que cobria as nossa cabeças e envolvia nossos corações numa mistura da culpa, solidariedade, e amor pelos iguais tão diferentes que passavam ( e ainda) por sofrimentos e privações que a gente nunca passou ( você, por exemplo, tem fome de quê?), sejam eles da Etiópia, da Mongólia, do Peru, do Acre, do Capão Redondo, de Varanasi, tanto faz.

Eu nunca fui particularmente rocker, já te contei isso, mas gosto de gente, de multidão do bem, de aglomerado de felicidade, de agrupamentos de sons. 
Sei que rock’n’roll, baixo-guitarra-bateria, pandeiro-cavaquinho-violão, sítara-tabla-tampur, sax-piano-contrabaixo, will never die! Mas enquanto houver ignorância, mãe de todos os horrores, não vão morrer também  a fome , a ganância, o medo, a violência. A canção Do They Know It’s Christmas ? vale pra todos os dias, inclusive hoje, Dia Mundial do Rock. A imagem aí em cima também. Eu estou pensando nisso. Pensa você também. bjs_II_.

ps: Pra aprender mais, inevitável e  obrigatório passar a bola pra Néco, mulher puro it’s only rock’n’roll but she likes it , yes she does!!http://http://neco.zip.net/index.html

 



Escrito por amita às 17h41
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Declarando meu amor

 

Foi a primeira vez juntas e fiz amor com ela a tarde toda. Foi maravilhoso. Ela me sorria com seus olhos castanhos, sua voz suave, sua mãos que sabiam exatamente como tocar e fazer o melhor. Eu retribuía com o que há de mais puro em mim, minha música, mesmo que às vezes tímida, querendo agradar (qualidade e defeito que eu tenho) e deixando claro que  meu desejo por ela ficasse absolutamente explícito, contagiando o dela por mim que também cresceu, amadureceu, sei disso. E naquela tarde juntas, choramos, rimos, falamos, ouvimos, tocamos, cantamos,  gozamos. Fizemos juras de amor e de repetir a dose em breve e sempre. Com você eu sempre topo todas. bjs_II_ 

ps: ela já disse tudo publicamente. Eu, ainda anestesiada, não encontrei as palavras, mas se vc quiser saber mais detalhes visite aqui:  

http://aquizumba.blog.uol.com.br/

 



Escrito por amita às 12h23
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Give Me the Night

O cinema sempre me garante deleites de imagens e trilhas que fazem de mim personagem, às vezes protagonista, dos que me chamam pra dentro da tela. Assim foi com All That Jazz.  Um título assim já era o máximo pra essa então menina, já infectada de jazz em níveis muito acima aos de referência que subiram muito consideravelmente quando ouvi aquele duo guitarra e voz, cause they’re dead wrong, I know they are, cause  I can play this here guitar and he surely can com um swing incontrolável, as poltronas do então Majestic, uníssonas com o groove que aquele cara tinha, um it que era inédito no meu repertório (certamente no de muita gente), também o timbre da sua Ibanez que chorava igualmente macia em graves e agudos, escalas simples sempre terminando em alongamento, mega circularidade sem precedentes o som daquele tal de George Benson, que faz da voz, eco da guitarra.

Fui logo atrás de arranjar a trilha só por causa dele , o que acabou me fazendo descobrir um trabalho anterior, Breezin’, que traz a infinitamente avalassadora This Masquerade, onde a voz do GB sai do umbigo e apaixona até o militar mais resistente. Então definitivamente entendi que pra ele, voz e guitarra são quase a mesma coisa, Acho que quem canta o som que toca no instrumento, como fazem por exemplo os tablistas na Índia, se sente ainda mais parte dele, como se fosse a ponte, as tarraxas, os pick-ups, as teclas, as chaves, a pele. A música fica mais orgânica, mais cheia de sexo primitivo, já que a gente nasce com a oralidade toda pronta, e a do GB é muito intensa (tanto que começou a carreira como cantor),  faz esse truque de 2 em 1 como ninguém, com muita classe e estilo inconfundível, a gente o identifica antes da primeira nota. Fico toda derretida com a versão da This Masquerade pela garganta, pelos dedos, pelo som do Ben. iClaro que desde o início fiz a relação com  Stevie Wonder em All in Love is Fair (de quem - músico e canção - eu já era muito fã). Até hoje penso numa e lembro da outra, faço uma em seguida da outra. Da mesma forma, ouvir Benson e não pensar em Charlie Christian - que morreu aos 25 anos, responsável pela grande virada da guitarra pro jazz - e seu discípulo, Wes (ou Yes, né Daniel?) Montgomery é praticamente impossível. Aliás como bem disse o DD outro dia, o Wes Montgomery não usava palheta, não sabia ler partitura, e provavelmente por isso também cantava ( por dentro) as notas. Seguindo a mesma estratégia de oitavação do Wes, GB faz desenhos cheios de bossa no braço, com recheio quente de soul e a levada pop, garantida inicialmente pelo suporte do mestre Quincy Jones. Enfim, GB é um músico de vida publicamente dupla, transita com a mesma intimidade e capricho nas cordas de filamento de aço e de músculo Na minha espinha, o arrepio provocado por uma ou outra, é igual. Felicidade inevitável porque there’s music in the air and lots of loving everywhere. bjs_II_ ps: os olhos dele não estão demais nessa foto?

 

 



Escrito por amita às 08h04
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Anjo e pedreiro

 

Full Moon inspira temas românticos, poéticos, exerce um fascínio, um mistério pelo aspecto feminino de suas formas redondas e luz prateada. A lua tem fases. A mulher, também. Ambas têm ciclos que se repetem a cada 28 dias. Durante a lua cheia há mais mulheres menstruadas, liberando seu fluxo numa enxurrada de conteúdo rico pra depois fertilizar o mundo com música, uma Red Rain feita de segredos e presentes pra inundar a vida com sabedoria como muito bem captou um homem de sensibilidade única, um cara do outro mundo, do real world desde sempre.

Peter Gabriel é daqueles artistas que transcendem tempo e espaço, que não é de lugar algum, é de todos, que efetiva o que a gente tem discutido aqui sobre a música ser o grande e universal elo dessa chain of love que cada um de nós faz parte. PG está na minha gênese. Suas letras absurdamente absolutas, sua capacidade musical inovadora até quando não trabalha como músico me levam a tantos lugares. Cada vez que I hear that voice again, uma viagem nova acontece em mim. Seguir sua carreira faz a diferença na minha vida e provavelmente na sua também. Como um bom pedreiro, ele tem construído meus ouvidos e meu coração com seus tijolos melódicos de quem loves to be loved e não desiste nunca, na contagem do contra tempo de Solsbury Hill (q me lembra o ev), sua argamassa feita de extratos de árvores tremulantes e sangue do Eden, sua estrutura larga e forte movida a vapor, misturando cal Britânico com pigmentos de todas as partes de um mundo sem fronteira nem lágrimas. Como um anjo, me cerca de gente que completa a minha vida e me dá suporte, e vice-versa, me dá o beijo da vida e anuncia que a verdadeira mudança a gente só atinge se vier do lado de dentro. O próprio PG está sempre rodeado de cabeças e corações múltiplos, com pontos de ebulição distintos entre si, e é isso que dá a textura do molho exoticamente temperado que ele faz brilhantemente, um som multifacetado  esférico, crescente, que diz tudo. Basta querer ouvir. bjs _II_

 



Escrito por amita às 08h16
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The Enlightened

Blue Moon, you saw me standing alone . Shy Moon I can see your white face. Fly Me to the Moon and let me play among the stars. Walking on the Moon over Bourbon Street I hope to see you on The Dark Side of the Moon. Lua cheia de encanto hoje vai reger no céu orquestra sinfônica com peça de improviso, tudo magicamente belo e perfeito porque hoje é noite de lua cheia, fértil e grande.Que venham os acordes maiores de mãos dadas com os menores, que as semínimas e colcheias se toquem com carinho, sejam sustenidos  e bemóis tochas viris iluminando diminutas e aumentadas   num clima de sedução irresistível e dionisíaco. “Se a noite inventa a escuridão, a Lua inventa o Luar”. Cada luar tem um tom. Deixei a dissonância de folga. Hoje meu tom é puro e maior. Um fim de semana literalmente Iluminado, especialmente pra você que merece mais que ninguém. bjs _II_   ps: post feito às pressas, mas não podia deixar passar a oportunidade. Lua Cheia também é Impermanente.....



Escrito por amita às 16h47
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Going ahead ( ou vamo’ em frente que atrás vem gente!)

 

Quanta coisa aconteceu comigo naquele ano, muitas mudanças, descobertas , algumas certezas, muitas dúvidas. No meio das novidades, veio ele, quase ao mesmo tempo que o Jaco, e foi das melhores surpresas da minha vida, me invadiu com sua música envolvente e criativa em todos os trastes, e nunca mais saiu de mim. Meu primeiro contato com Pat Metheny foi de cara a faixa 1 do lado A, (Cross The)  Heartland, do American Garage, 1980. Comecei do princípio, esse foi seu primeiro trabalho que chegou aqui, e só alguns anos depois a gente teve acesso ao Bright Size Life, 1975, veramente il primo!
O que chamava atenção dos meus ouvidos era a fluidez com que ele tocava nas cordas nas pestanas e nas soltas, nos solos e seqüências de acordes. E mesmo sem ter visto o seu rosto, eu imaginava que ele tivesse um jeito doce de menino carinhoso - coisas confirmadas quando o vi e ainda presentes no Pat de hoje, o mesmo menino sempre de jeans e camiseta listrada na horizontal, cabelos compridos, esvoaçantes e do tipo seco, agora com fios de prata pra combinar com as cordas, que vai fazer 50 dia 12 de agosto. Seu toque não era só suave como folk, tinha um monte de jazz embutido lá, uma porção generosa de Wes Montgomery, de Joe Pass. Uma leitura dinâmica e complexa,um som cerebral e melodioso, cheio de nós, sofisticado mas também meloso e íntimo que eu ouvia compulsivamente, repetidas vezes durante muitos meses, tomado um cuidado quase religioso com aquele vinil.
E era aquela levada do Pat que eu conhecia e adorava, até quando veio 80/81 e aí sim, definitivamente fiz pacto de sangue com ele, juras de amor eterno, assinei cheques e folhas de papel em branco, passei procuração, aí sim ele cruzou o meu coração e com todas as suas cordas tatuou seu nome, em ventrículos e átrios, nas paredes internas da aorta. Justiça seja feita (e o próprio Pat me apoiaria aqui), a presença dos outros músicos desse projeto facilitou sua entrada vitalícia no meu músculo 4/4 . Afinal ninguém com o mínimo de bom senso resistiria à uma cantada instrumental do Pat junto com Charlie Haden, Jack DeJohnette, Dewey Redman e Michael Brecker. E foi cantada de mestre, completa, preparada com afeto nota por nota, 2 discos, dessa vez já em CD. E daí em diante, cada novo trabalho veio como renovação dos votos, comemoração de bodas. Pat não muda, amadurece, acrescenta, aumenta, fica melhor.

Perdi a conta de quantos shows assisti. Não tantos quanto eu gostaria, nem na mesma medida do meu irmão, cuja admiração e amor incomensuráveis pelo Pat já mencionei aqui, e o Zantwyk, sempre ele, é testemunha desde o início, desde aquele show fora de São Paulo, à noite, lindo, fomos todos, choramos todos. Houve também a vez das 2 credenciais fake, que a gente jogava pela janela do banheiro em sistema de rodízio pra um monte de gente ver todas as apresentações no Free Jazz, quando já era aqui no ex-Palace. Tudo pra reunir os amigos em torno da causa maior, a música.

É evidente a relação que o Pat estabelece entre música como o elemento fundamental na construção do mapa do mundo, música como agente transformador, dentro e fora. É nítida a influência de Tom Jobim na atmosfera das harmonias, da percussão orgânica de Naná e Armandinho Marçal, na cumplicidade com o estilo do Toninho Horta. Pat reverencia o Brasil sempre, e musicalmente a gente sabe que o Brasil é um mundo.

O universo musical do PM é infinitamente vasto, produz em mim momentos de inspiração incentivados por suas melodias introspectivas, tranqüilas, ternas, que afagam e aquietam minha ansiedade de conhecer e resolver tudo, minha urgência.  Na mesma medida em outro compasso, sabe provocar instantes de ímpeto agudo, recheados de coragem, de movimento com aceleração constante e positiva, de determinação, de sair da cama e ir pro dia. Pat em mim todas as horas, presente nas mais diversas fases que já vivi e com certeza nas muitas que vou viver ainda. Porque a sua música me faz plena, serena, grande, leve, forte e mais cheia de amor (se é que isso é possível) todas aglutinadas em uma. Me faz mais Vindaloo, como eu gosto. Não rejeite a sugestão que eu te dou aqui com tanto carinho e providencie uma sessão PM hoje mesmo pra ficar mais Vindaloo você também.!! bjs _II_

 



Escrito por amita às 08h49
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