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Música para Ahimsa
Improvisando. Tirando de não sei onde tanto som que corre rápido demais, nem dou conta de respirar, e/ou se arrasta em adaggio, com direito à pausas de mais compassos que o permitido. Harmonia não é base dessa improvisação de melodias cheias de dualidade, como minha auto-referência. Improvisar com qualidade é talento de poucos na música, na vida também.
Improvisador confesso em ambas as artes por excelência, de criatividade e proficiência inegavelmente superiores , Ravi Shankar é saudado por todos com prostrações completas, com todo respeito e admiração, assim como se fosse uma figura religiosa. E é! Generoso e humilde, sabe da sua missão privilegiada em religar quem experimenta suas peças, do mundano ao espiritual, como ninguém. Sou sua devota fervorosa e também de outra alma, ainda maior, Mahatma Gandhi. Inicialmente a pedidos enquanto afinava sua cítara para uma apresentação ao vivo em rádio na antiga Bombaim de 1948, dias depois da morte do Grande Alma, Ravi Shankar fez Mohan Kauns, um lamento dos mais doídos pela perda devastadora do civil desobediente, paz sem violência em forma de gente. Repetindo a seqüência das notas contidas no seu sobrenome, Ga Ni Dha , que não por coincidência formam parte do solfejo Indiano, Shankar constrói o som do sofrimento, do entendimento e da libertação. Ouço e me vejo passando por becos estreitos, vielas, ruas sem saída até chegar aos Gaths de Varanasi -cidade natal do Shankar e de muita gente que nem sabe que já nasceu lá mas sabe que é lá que quer morrer- onde definitivamente me encontro nas águas de choro, águas de cheiro, que me transformam, pra começar tudo de novo, tudo novo de novo. Do fundo das minhas águas agora mais claras recomendo que você ouça Homage to Mahatma Gandhi, disponível na Rádio UOL, nas lojas, aqui também. bjs_II_
ps: imagem capturada pelo Paulo, marido vindaloo, meus outros olhos, os verdes, os que enxergam Varanasi em mim.
Escrito por amita às 07h17
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Amigo da Música
Ontem foi Dia do Amigo. Você já tinha ouvido falar nessa data antes? Nem eu. Mas uma coisa Vindaloo que a música e a net têm me possibilitado é a presença de queridos de longa data, descoberta de novos queridos e assim posso me espalhar mais pelo mundo o que pra mim é, senão uma missão, um objetivo, um desejo. Música tem tudo a ver com amigo, especialmente se você toca ou é fissurada. Mesmo os que se dizem (quase) fóbicos sociais acabam se cercando de 2 ou 3 com quem dividir notas, solos, compassos, silêncios.
Dos amigos de música falo dele, na minha vida bem antes de te conhecer, quando eu tinha 6. Nele cresci abraçada, sempre grudadinho em mim, minhas mãos no seu braço, corpo, boca, tudo só pra ser feliz. Sobre ele ainda me debruço pra chorar minhas lágrimas e minha música, encosto a cabeça pra ouvir seus segredos e conselhos de como fazer fonte de felicidade plena. Com ele aprendi exatamente como se desenvolve o clima de intimidade e de troca, de um olhar pro outro e saber o que quer. E tem muita gente que entende o que eu sinto, que também sairia no tapa por ele, que tem trânsito livre nele,entra na hora que quiser, às vezes com força visceral, outras com dengo e jeitinho, sempre com respeito quase religioso.
Ontem revivi uma demonstração de amizade e amor assim entre Yamandú Costa e seu violão. O amor entre eles é invejável, lírico e mais passional que Shakespeare pudesse escrever, e quando estão juntos não tem ar pra mais ninguém. Quando experimentei Yamandú pela primeira vez, ele, aos 17 , noite de sábado na tv, com Armandinho no Clube do Choro, fiquei sem fala, sem movimento, sem sentir coisa alguma, sem saber o que fazer com o que eu entendia como violonista de qualidade. Sério, fiquei sem dormir. Ouvia o som que ele conseguia tirar daquelas cordas que eram muito mais que as que se podia contar, e achava um escândalo, era quase imoral, ultrajante de tão maravilhoso. Quando olhava pro monitor e via suas mãos escorregando insanamente pela madeira viva, balançava a cabeça, sorrindo inconformada com a tamanha genialidade.
Yamandú é músico voraz, impetuoso, viril, jorra gozo por entre dedos e corpo fundidos com violão em sua performance de acordes rápidos e insaciáveis, cheios de vigor. Precursor das águas, diz seu nome, sua música tem pressão incontrolável que ao invés de apagar incêndios, provoca fogo ardente e alto devastando matas inférteis, copulando o solo e gerando flores que brotam instantaneamente como Sidharta quando deu seus primeiros passos. Intérprete único e de personalidade marcante, agressiva, maior que as peças que toca, o que o faz de fato parceiro dos gênios que as escreveram até antes dele se materializar. Seu jeito menino de Passo Fundo só percebo nas raras pausas entre um arrancar do meu coração pela boca e outro, na sua fala de sotaque delicioso e melódico. Quando toca, incorpora música vinda de um lugar que eu não conheço, não tenho acesso. E não é uma transformação, um transe, um surto psicótico, não. É ele mesmo em seu estado natural, consciente, plain, fiel às suas raízes de chão e de céu, dos quatro pontos cardeais. Mulher hiper-mega-ultra-extra-sensível que sou, tenho essa característica muitas vezes multiplicada quando chego perto, passo de raspão por ele. Falo de boca cheia de prazer que ele é o máximo, que tenho muito orgulho sim, que todo mundo tem que ouvi-lo com atenção fina, fazer todas as reverências merecidas, porque vai se apaixonar por esse cara que ama seu violão em público sem pudor, sem vergonha, sem medo ou escrúpulos, que vive na alma a amizade indestrutível pela música e por seu amigo.Yamandú Costa é um sinal que veio de dentro da gente de que a música brasileira é o nosso melhor bem. No meu caso em particular, além desse, tenho também você, o que me faz milionária!! bjs_II_
Escrito por amita às 08h33
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Bird of Paradise
Minha cabeça pensa muito mais rápido que meus dedos, que minha boca. Fico sempre devendo em te mostrar com riqueza de detalhes o tudo que eu tenho. E me atropelo, tropeço por entre pernas, dou nó debaixo ba língua, pisco alternadamente os olhos, mas nem assim o resultado sai uníssono com fonte. Não é simples de engolir às vezes, mas o fato é: sou uma mulher normal, comum, ordinária e restrita. Provavelmente por isso mesmo sou aceita, moderadamente diga-se de passagem, nos lugares e pessoas que freqüento. Mas ele não. Porque virou a mesa, trocou o disco, travava competições entre cérebro e falanges onde o empate era sempre possível, soprava pra fora o que ninguém tinha dentro, sons que construía lavando pratos, colheres, esfregando escadas em escalas, tecendo acordes em fios de quintas sustenido. Um cara rústico nos passos, na fala, ao mesmo tempo carente e constipado no seu mundo, o que ninguém pode contrariar porque, já pensou como devia ser maravilhosamente pirante viver dentro do Charlie Parker?
Bird já nasceu pássaro, livre por natureza , com seus harmônicos sem limites que voam no alto em rotas improvisadas, sem destino certo, nada ao certo ainda bem. Desconstruiu minha ignorância com seu idioma próprio cheio de nuances de lingüística sem regras, muito sensível, nada sensata, que Chomsky nem faz idéia, com sua matemática complexa onde pares, ím-pares, dis-pares são divisíveis com a mesma facilidade, com sua palheta de cor exuberante, muito mais vasta que qualquer Pantone para print ou web, com sua física apaixonada, provando que bem mais que somente um corpo podem ocupar o mesmo lugar no mesmo tempo, com sua antropologia corajosa em unir tribos aparentemente inimigas. Entra pela porta da frente, no seu /meu aniversário, todo embraceable him e se derrama carinhoso sobre mim com sua música emocionada cujo contágio imediatamente contraio, deliberadamente mantenho, desejo e suplico nessa, nas próximas, soprando Billie’s Bounce, causando desequilíbrio duplo e definitivo. Meu cerebelo perdeu qualquer funcionalidade, irradiado por uma constellation de cool blues que me deixa quasimuda, nunca mais a mesma, nenhuma vez. Ele é meu herói e sendo assim, só podia ser completo por uma heroína que tirou seus pés do chão, deu ar aos seus pulmões, desenvolveu sinapse especial, visceral, fatal, sob medida, customizada entre sua cabeça, seu coração, seus dedos e o fez de jeito egoísta, tirou mais rápido que um relâmpago qualquer gostinho de estar com ele ao vivo. Bird não era daqui, nem de lá, nem do céu, nem do inferno, nem da Chan, de ninguém, nem de si mesmo. Bird é do Paraíso e de certo na sua vida, só o lugar onde mora hoje. bjs_II_
ps: enquanto a rádio Vindaloo não vem..entupa ouvidos externos, internos, tímpanos, de Bird!
Escrito por amita às 10h17
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Shanti Om
Mudança de verdade existe quando vem de dentro pra fora, do lado do avesso da gente. Música é o elemento mais transformador da minha vida, o que me liga a mim mesma, a você, ontem, agora, amanhã, o que pode me fazer mudar, se possível pra melhor. É efetivamente o que mexe comigo, mobiliza minhas forças sabidas e ocultas, causa frio na barriga, arrepia espinha, colore meus cabelos, lateja meus músculos, revira minhas vísceras, inunda meus olhos e boca e mais, apressa meu coração, aumenta a temperatura dos meus fluidos, aperta meu tórax com angústia, desorganiza meus inúmeros ticos e tecos, dá sentido ao que sinto, ao que penso, ao que sou, define minha personalidade acima de qualquer diagnóstico ou classificação.
Nada é mais poderoso, nada diz mais sobre mim. Nada melhor entrega a você o queeu tenho pra te dar. E ultimamente tenho tido pouco. Faz alguns dias que estou reduzida, escondida, recolhida no meu canto esquerdo, limitada na paz e no sorriso. E vejo a semelhança entre o dentro e o fora.Naturalmente eu sou feita de dentro e de fora, de escuro e de claro. Os sons que têm sobrevoado meu teto físico, ora descrevem quase que literalmente ora aliviam completamente esse instante. No rádio o alívio,na surpresa de uma regravação que provoca lágrimas agridoces primeiramente porque chega com sitar e tabla, também pela nostalgia da canção que ficou perdida no tempo mas guardada em alguma gaveta no compartimento chamado memória e faz reflorescer girassóis na minha boca em forma do meu sorriso tímido, com direito à algumas da muitas covinhas que meu rosto redondo e meus olhos castanhos produzem. A canção vem pela Fernanda Abreu com letra simples e atualizada (com permissão do Jorge Benjor) que dispensa dicionários, questionamentos, debates, com melodia simples que qualquer um pode reproduzir na voz, no instrumento de escolha, na cabeça, com swing de levada simples que me move corpos e almas devagar, e me diz que vai torcer pela paz, pela minha, pela sua, pela nossa, pela de todo mundo, no mundo todo, pelo amor, pelas coisas bonitas. Give peace a chance.Shanti Om. Namaste bjs_II_ ps: preciso ainda sugerir ? http://www2.uol.com.br/fernandaabreu/na_paz.htm
Escrito por amita às 10h44
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