Sexta-feira. 13. Agosto

 

Agosto é em geral um mês mal visto por muita gente. E se o dia 13 cair na sexta-feria então....Mas se você for daqueles que acredita ou não desacredita ou respeita  esse tipo de crença e quer se prevenir de qualquer episódio causado pela pouca sorte que dizem permear o dia de hoje, sugiro um playlist pra cima, com swing e groove dos bons, mesmo quando trata de amores perdidos, reivindicação de respeito ao sentimento, cor, orientação política e sexual alheios. Estou falando de R&B , do pusherman Curtis Mayfield por exemplo, que tenho ouvido bastante ultimamente em especial no Trilhas e Tons, e que sofreu aquele acidente que o deixou tetraplégico em 13 de Agosto de 1990 e nem por isso paralisou a sua música, continuou alto no seu superfly; de soul com a over natural woman Aretha, com Marvin Gaye insinuando pra gente get it on, com os reis do  boogie wonderland Earth, Wind & Fire dançando sem parar até fim de setembro , James Brown apesar de caído, encrencado, sempre feeling good e Joss Stone, uma chokin’ kind ultra jovem mas que já saca direitinho o que é um super duper  love. Isso sem falar na de Música Preta Brasileira da Sandra de Sá jogando fora no lixo, Paula Lima querendo ver você e o Bossacucanova no baile do Clube do Balanço preparado com carinho pelo Matolli .

Particularmente eu tenho muitos motivos pra achar que essa história de maldizer Agosto, virginianos, qualquer outro mês ou signo ou estação do ano puro preconceito e ignorância. E se você estiver lendo esse post depois do dia 13, no stress. O playlist vale como proteção e good vibes a vida toda, pra espantar mau olhado, ajudar a vestir  sorriso com brilho porque como diz o Zoli inspirado pelo Benson, a noite vai ser boa. Só depende de você querer, né? bjs_II_ps: por via das duvidas, põe mais alho no seu Vindaloo,vai ficar mais gostoso ;-)

 



Escrito por amita às 15h55
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Razão pra ser feliz ?

Nem sempre consigo focar num só, porque o som de um me leva a outro,e mais um, reação em cadeia, e quando me dou conta, não escrevi nada, meu teclado trava de tantas opções de felicidade musical aqui na minha cabeça.

Por associação livre então, paro no primeiro dos mil que fazem trilha pra mim hoje. Fusion. Funk. Comecei a curtir quando vi e ouvi Car Wash em 1976, identificação instantânea com o punch do som, o jeito de dançar, muito groove, flor da pele. Mas foi logo depois que nós apertados, quase náuticos foram feitos nas minhas veias, artérias e cabelos e por responsabilidade do Stanley Clarke com School Days,  básico, indispensável e fundamental!

Stanley quebra tudo, no acústico, no elétrico, cordas e dedos dando laços inimagináveis que eu e talvez você, meros mortais, não sabemos fazer, daqueles de pacote de presente, lindos e trabalhados. School Days é um divisor de águas, não tem quem não goste, ou sorria, ou não se desestruture quando é atingido pelos slaps,  pela velocidade com destreza nada comum, mais a marcação do beat que fizeram dele um divisor de águas, um modelo, um estilo, um papel novo do baixo fazendo frente, abrindo, deixando de ser coadjuvante. Disco compulsório pra quem gosta de sentir música saindo pela boca, sabe? O Jaco sabia.

Última vez que vi Stanley Clarke foi no show que ele fez com o Meola e Ponty . O primeiro não me emocionou nadinha, foi como se estivesse vendo o mesmíssimo cara do inicio dos 80 que não saiu do lugar, e ainda por cima tinha uma postura muito arrogante (arrogância é uma das coisas que mais me incomodam, e que vejo como sintoma de insegurança), se comportando justamente como aqueles que não entendem o propósito música. O segundo, mais acessível, sorridente, afável, mas também criando uma sensação de Deja Vu. Daí vem o Stanley, cara grande, grande cara, generoso, distribuindo felicidade, e a gente quase enfarta de tanto tesão que o som dele provoca, colocando casa abaixo, derrubando tudo, as paredes estremecendo- tá certo que foi no deprimente Olympia, casa que nada tem de forte ou sábia. No fim da festa, gritei até minha voz se materializar, aplaudi com tanta convicção  que meu anel voou muito longe, mas os dedos ficaram no lugar, mais ligados ao meu coração emocionado, meu par de  olhos brilhantes, sorriso na extensão máxima, todas as 11 covinhas presentes no rosto coberto pelos cabelos despenteados pelo furacão daquela música.

E assim, como em tantos outros shows que já vivi, fui dormir feliz. Quer razão melhor? Aliás, bem diz o Luiz Tatit, precisa de motivo pra ser feliz? Eu tenho todos. E um recente, que me deixou felicíssima e super honrada, foi a menção deste humilde blog no melhor programa de rádio sobre jazz online (e também o seria se fosse aberto), o UOL THAT JAZZ, do Rodrigo Barradas. Se você for assinante uol, recomendo, subscrevo, sugiro seriamente que ouça todos os especiais, começando pelo que está disponível desde o último domingo, 08.08.2004, um presente de aniversário adiantado. Se você não for assinante, vou pensar em alguma coisa pra te fazer feliz também, ok?. bjs _II_ http://www1.uol.com.br/radiouol/acervo/indexthatjazz.htm

ps: adivinha quem tocou na mesma noite que o Stanley Clarke , há exatamente um mês, no North Sea Jazz Festival? Felicidade em dose dupla , pra quem esteve lá....

 

 



Escrito por amita às 08h37
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Where we all belong

 

Na mídia dois dias atrás uma noticia sobre John Bayless fazendo a sexta ponte entre Bach e os Fab4, provocou em mim aquele efeito reverb + digital delay com setting mais alto de looping soando Eleanor Rigby. Muitas coisas nela sempre me tocaram.  Que me lembre a primeira canção não erudita que ouvi que contava com instrumentos que normalmente não se misturavam ao mundo pop.  A frase que abre a canção, já dando o tom pra dentro porque acaba em menor e por tratar  all the lonely people - quer dizer que eu não sou a única!?! pensava eu, e aquilo servia como alívio, como afago tomando mais consciência que meu sentimento de solidão não era somente auto-referência mas vividos também por outras almas, o que então me fazia menos só. O arranjo de cordas, cada qual chorando uma melodia diferente, melancolicamente doce, marejando meus olhos, apertando meu coração ainda mais quando termina a estrofe descrevendo a rotina silenciosa, de olhar distante que todos nós temos, e retorna o refrão pra relembrar o tema sobre a gente se dar conta da presença simultânea e eterna do Tudo e do Nada, do Ser e do Não-Ser.
Tenho a minha própria imagem de Eleanor, de Father McKenzie, a dela melhor identificada, mais clara, mais próxima. Ambos presos em seus mundinhos pequenos, onde ninguém mais cabe ou entra, mantidos intactos e imóveis por livre arbítrio, no final a real causa da dor.
Então anos atrás escrevi um arranjo para somente 6 cordas do mesmo braço, mudando a afinação, acordes com muitas soltas, quem sabe assim dandomais asas à minha solidão, libertando Eleanor e McKenzie dessa inabilidade social que acomete hoje talvez mais gente que em 1966, numa tentativa de fazer mais etéreo um sentimento meu tão denso e íntimo.Gosto do resultado que me conforta e me faz gostar de Eleanor Rigby ainda mais, quanto mais ouço, mais admiro, mais amo, porque fala da natureza profunda, de elementos de estrutura primitivos, de coisas que sinto e às quais reajo hoje exatamente da mesma forma que quando tinha 6 anos. Na verdade, essencialmente,  muito pouco muda na gente  depois dessa época. Olha aí pra dentro de você e quem sabe vai concordar comigo. Pra mim, Eleanor Rigby nunca mais mudou. bjs_II_ 

 



Escrito por amita às 10h19
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Meu hoje, com um pouco mais de calma

No dia em que meus dois olhos negros estabeleceram contato com Lenine, peguei emprestado seu candeeiro encantado, atravessei a ponte que leva além do meu pensamento e caí completamente de boca com a força poética da sua música. Talentosíssimo no ritmo, comando das seis de aço que ficam em brasa com seu groove, Lenine toca com as 3 falanges, palma, dorso, pulso, tampo, braço, batucando melodias como jóias de repique, acordes dissonantes de cordas soltas no ar sem ar, um som com a personalidade, todo style de quem tem swing e contradição, como soul de Jackson e Tião, a Bonita com paixão sem medida por Lampião, a Alzira esperando em seu paraíso distante, o neném com medo de relâmpago e do futuro disfarçado em sorriso, a lavadeira do rio que reflete na brancura do lençol a dinamite do seu peito de insaciável apetite, a Dolores em botões de rosa e seus dólares.

Lenine não olha para o próprio umbigo, seus olhos são de raio-X, enxergam claro e longe, em todas as direções, na minha! Por isso tenho reações físicas quando ouço. Esse cara explode seu Capibaribe sobre mim com seus tempos de maracatu em triângulos ultra sonoros, pandeiros de pele fina, berimbaus decorados com tinta natural, faz em mim seus graves, médios e agudos juntos sem avisar com antecedência nem dá pra ensaiar, deságua seu Beberibe com suas notas e tons na minha cabeça, rodopiando e atrapalhando minha voz. Gosto dele, tudo nele, seu rosto Gary Oldman, mas em especial  de sua mão direita onde estão Naná e Marçal e também João Bosco, todos embutidos e explícitos, sem esforço algum, deliciosamente irresistíveis. Não sou a única ouvinte da sua Rádio Nacional, nem sua diva ou Rapunzel, nem ele conhece meu divã, mas caí na sua rede de primeira, não tem quem não caia.Um músico inteiro, completo, escreve, toca, canta, com paciência, sereno mas com muita intensidade, bem Vindaloo, como se fosse a última vez, como se só restasse um dia, com urgência de dizer. Como eu. Pelo menos nisso.E nunca mais devolvi o candeeiro  bjs _II_

ps: off topic – O  caderno Turismo, da Folha de hoje, 02.ago.2004, print ou online publicou matéria sobre Varanasi.

 



Escrito por amita às 16h14
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