Sabor de Moderno

Hoje começo te escrevendo assim, mais ou menos entre aspas :

Você já viu aquele menino que tem um balanço diferente? Se você viu e reparou, ele tem um jeito de sorrir, de falar, de olhar, de pensar, de tocar, de compor, que me deixa louca!!! Não sei se ele veio da Lua ou se veio de Marte ou de Londrina me capturar. Só sei que desde quando o (ou)vi  fiquei siderada, cantando sílabas de letras lindas livres, contando o tempo que não sem tempo marcava as doces doze notas nunca repetidas, uma atrás da outra, uma pausa e de novo o pensamento musicado sem barreira sem fim nem começo.

Não, não foi um momento nostálgico, saudosista, nada de “como eram bons aqueles tempos..” Eram sim, mas já acabaram. Detesto isso, tem cheiro de mofo. Eu só tenho o hoje. Mas domingo vivi um tipo de som que é sempre novo, surpreende sempre por não seguir. Chamado por alguns de música não comercial, por outros de música difícil, por uns tantos de música pra intelectual, de música chata. Eu chamo de música-e-pronto e ponto final. É uma estética que eu gosto, música de ângulo aberto com liberdade de tons e tempos que proporcionam tantas alternativas quantas eu quiser ( Segundo Theodor Adorno e sua teoria, adjetivar a música depende do tipo de ouvinte que você é. Mas sobre isso vou falar logo mais, assunto deveras interessante.)

 

No fim de semana Arrigo Barnabé (hoje é aniversário dele – nem vou mais falar sobre a sin..). novamente destilou seu veneno croco-idílico de gosto esquisito, meio amargo do futuro, pra mais gente, gente muito nova e virgem dele que teve a chance de sentir seu dedo de deus revisitar o Riviera, se debruçar num balcão de bar de fórmica vermelha e jogar fliperama. Olhando para os virgem de Clara e também para iniciados como eu e vi em olhos, bocas, mãos, faces corpos sinais do orgasmo total provocado pela sedução irresistível do de músicos descolados quando o assunto é o prazer de fazer som com prazer. Tetê e sua afinação abençoada pela terra, lua e estrelas cantando valsa linda de nuvens vermelhas no céu, Vânia  entoando repertório à altura do seu talento. Devia ser sempre assim. Como várias  outras acho, a Vânia  Bastos muito subestimada, carreira de caminho tortuoso, mas se ela escolheu assim, quem sou eu, não é. Suzana  de açúcar, sublime  criatura iluminada de sorriso permanente e sabedoria múltipla. Os meninos metais, piano, baixo, guitarra e batera e Regina Porto no teclado e narração com competência otimizada pelos anos - ouça o que eu te digo, envelhecer é bom. E disso vc sabe,ninguém escapa, porque como disse Roger Waters hoje a gente está one day closer to death. So true.

E por isso mesmo foi lindo observar que eu sentia algumas mesmas coisas e tantas outras novas depois de (re)ouvir/ ver Arrigo e a banda Sabor de Veneno depois de 20 anos. Tudo novo de novo. A mesma coisa completamente diferente. O som e eu. Duas décadas de trabalho pra ser melhor, ficar melhor. Para o som do Arrigo. Para mim também. Tanx God. bjs_II_

 



Escrito por amita às 12h09
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Impermanência e Sincronicidade em acordes maiores

Nos últimos dias o conceito de Bardo tem me rodeado de tal maneira que não posso deixar de te contar. Começou na FNAC onde tropecei num livro fundamental chamado O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, baseado nos ensinamentos de uma obra ainda mais fundamental, O Livro Tibetano dos Mortos, que fala sobre Bardo, ou seja, um estado intermediário entre morte e renascimento, um momento de transição, uma oportunidade de rever e recomeçar com mais clareza, com mais amor e ser mais feliz, renovando o karma. Então, no dia seguinte, dou de cara com Spirit Room, CD
do Jai Uttal, um americano que aos 17 foi estudar sarod e voz com Ali Akbhar Kahn, aos 19 se mudou pra Bophur, em Bengal, na Índia, onde conheceu um grupo de cantores de rua, Bauls of Bengal, com quem decidiu se juntar pra fazer música pelo país e ouvir a música que ele tinha por dentro e nem sabia. Mais tarde ele faz um trabalho, Beggars and Saints, reverenciando esses e todos músicos da Índia e o quê ela representa no seu coração. Depois faz Shiva Station, mixado e produzido por um cara de NY chamado Bill Laswell, que também tem ligação com a música e espiritualidade hindus, e faz a transição entre ocidente e oriente mais fluida e acessível. Som muito lindo, tudo pra gerar com karma positivo em quem faz e quem ouve. Daí ontem assisto na TV por duas vezes um documentário sobre o Jonas Hellborg, e logo de cara percebo que ele também tem o coração na Índia.  Hellborg é um baixista sueco, com lay-out parecido com o Jaco-cabelo liso comprido, preso em rabo-de-cavalo e com todo o respeito, não é o Jaco- foi trazido pro jazz em 1981 e teve um empurrãozinho pelas mãos do Michael Brecker no festival de Montreaux, dividiu com  o John McLaughlin e sua Mahavishnu, e mais tarde tocou e foi produzido pelo mesmo Bill Laswell.
Um dos projetos mais bonitos do Hellborg, Paris, foi feito em 2001, com um guitarrista show, Shawn Lane - um virtuoso muito melódico e sensível, fez sua transição ano passado aos 41, que tocava qualquer coisa com muita personalidade, dedos suaves e muito sábios das escalas, respirava o seu som com muito tesão e tinha conhecimento raro de música hindu- e 3 super irmãos da  grande família Vinayakram, do sul da Índia,  Selvaganesh e Umashankar  arrasando na percussão e Umamahesh emocionando no vocal, filhos do Vikku, membro da formação original do Shakti nos anos 70. Aliás hoje em dia o Selvaganesh faz parte da nova formação do Shakti com o McLaughlin e o estonteante tablista Zakir Hussain.

Assisti o documentário com muita atenção, quase sem piscar ou respirar pra não perder nada, e aos poucos tudo foi se ligando, todas as muitas transições pelas quais tenho passado, essa coisa da força que a música tem em mim que não se compara a nada, essa intimidade com a Índia desde antes de me conhecer que é tão evidente, meu interesse por determinadas questões da vida, meu envolvimento com filosofia Budista, minha emoção sem tamanho quando ouço/ faço escalas de Vishnu-Ganesh,  os princípios que procuro seguir porque são mais verdadeiros e muito maiores que a minha mera insignificância, minha adoração por Varanasi, minha vida Vindaloo. O filme se passa basicamente em Paris, Jonas Hellborg me lembra Jaco, que me lembra tanta gente dentre eles meu amigo Dimi, que me ligou ontem (a gente não se vê há mais de 10 anos), que também é baixista e com quem passei um Reveillon, ou seja, uma transição, em Paris junto com seus dois irmãos. E sabe qual é o nome da gravadora que lançou esse CD e outros trabalhos do Hellborg, dos irmãos Vinayakram e etc.? Bardo. bjs_II_
ps: a Bardo Records tem um selo que se chama Day Eight, hoje é dia 08.

 



Escrito por amita às 15h50
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