www.fmsuso.com

Jack  Soul da Gâmbia

 

Ontem à noite, Jack DeJohnette estendeu sua imensa colcha de retalhos, cada um com seu tamanho, forma e tecido diferentes, aqui, bem pertinho,
a dois quarteirões do meu paraíso particular. E como das outras vezes, pude rever e acompanhar o chuleado  bem feito unindo cada pedaço da sua colcha percussiva , inicialmente apresentada em cordas e teclas ( sim, ele é  também um pianista de mão cheia de mais de 10 dedos, believe me!).
Como diz o versinho, Jack ladrilhou o palco do DirecTV (dirigido pelo César Takaoka, com cenário e luz impecáveis, além da captação e transmissão simultânea em vídeo, tudo muito acima da média) com suas pedrinhas de brilhante para acima dele passar Foday Musa Suso. É, bem acima sim, porque  Suso não pisa, ele flutua e me levou junto.

Um rei de habilidade adquirida pelo treinamento intensivo iniciado faz 900 anos na Gâmbia, por sua família, a mais tradicional de griots, como trovadores, cantadores de histórias, assim é Suso, majestade, iluminado por sua história que ele faz vibrar nas 21 cordas da sua kora, recheada de cores físicas, ritos, mensagens de chão e ar, de lá e daqui.  

Se Jack tem mais de 10 dedos ao piano, que se transformam em mil quando tomam a baquetas e fazem repercutir Américas e Áfricas e Mundos,  nos inúmeros crash , splash, chimbal, ride,  peles de afinações diversas, esteiras de praia e de academia, Suso tem um número ainda maior quando faz sua kora chorar no seu colo e nos meus ouvidos. É impossível não se emocionar com um simples arpejo dele, seja ao vivo, nos muitos trabalhos solo, na companhia dos ocidentais Kronos Quartet (Lucas, ele toca no Pieces of Africa!) Phlip Glass ou do brother de origem Herbie Hancock. Suso canta contos, toca cantos, encanta por inteiro com genialidade e grandeza, instrumentista múltiplo com comando absoluto quando o assunto é te pegar pelas raízes, como que penteando os cabelos com delicadeza, ou te jogar pro alto com firmeza anti-violenta, te fazer sonhar com água, trazer sorriso em rostos cansados da mesmice. Jack DeJohnette, completamente amalgamado em Suso, ovaciona com tudo que vê a frente, tamanha a dimensão da liberdade que a música que juntos inventam e recriam confere. Com ele aconteceu o inevitável:contágio imediato e incurável.Comigo também, porque como o nome dele já diz, Suso é Foday. E a de ontem foi inesquecível...... estou nas nuvens até agora......
Ouça logo!! Tenho certeza que  você vai sentir a mesma coisa. Palavra de Amita Vindaloo .
bjs_II_



Escrito por amita às 09h12
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by ph_vindaloo

Estados da música

Incontáveis são os monumentos erguidos na Índia em nome do amor devocional, mundano, fraternal, animal, sexual. E neles há sempre todos os sons, ecoando nas paredes frescas delicadamente decoradas, e nas brutas das casas simples, nos pés-direitos que vão até o céu, e nos que mal cobrem o sono, nos pisos limpos e brilhantes como a voz das irmãs Lata Mangeshkar e Asha Boshle, e nos de terra batida que tingem os pés.
Como no Brasil, nada na Índia é imune à música.Tudo é musica. Música em tudo. No silêncio do vôo do divino pássaro entre torres de âmbar, no trânsito das cidades grandes muito mais caótico que o de Sampa, nas sagradas vacas de andar macio e olhar calmo, nos graves dos elefantes e agudíssimos dos macacos pulando sobre nossas cabeças. Música nos sorrisos nos olhos cor de mel, nos cabelos negros transados e compridíssimos, nos gizos nos tornozelos e pulseiras enfileiradas nos braços jambo. Música dentro dos turbantes dos sikhs, dos defumadores com essências de pureza, em volta dos 5,5 metros de tecido dos saris, nas cerimônias da noite, do dia, de cremação e casamento, das rodas de bicicletas que carregam um monte de tudo, dos gravetos limpando os dentes que pouco trituram. Música da água avermelhada escorrendo escadaria abaixo, das mãos se unindo na altura do peito ou testa com um sonoramente superior _II_ namaste_II_. Música dos sarods, tablas, tanpuras,  shenais, de Ravi, Ananda, Anoushka, Zakir, Lakshimi, do aroma do sândalo bruto, em incenso, em óleo, das flores nas guirlandas, das contas nos malas. Música dos ambulantes, dos pedintes, dos Sadhus, das crianças, dos 15 idiomas oficias, dos tantos outros nacionais. Música das tijelas com daal, da polpa da fruta nacional amarelando as faces de felicidade, do pilão de barro, de madeira, de cobre, dos dedos que levam vindaloo às bocas tão bem desenhadas. Dos suspiros que qualquer um dá quando vê seus templos para Brahma, Vishnu, Shiva,  música sólida no Taj Mahal, monumental homenagem de amor jurado pela eternidade ( que ontem fez 350 anos, comemorados nos próximos 6 meses em Agra), raga de amor permanentemente esculpido em mármore, matematicamente calculado para refletir o pôr do sol na cela do forte na margem oposta do rio e iluminar por dentro, fazendo vibrar em uníssono atonal meu coração que bate em fuso 08.30 horas atrás. Música para mim, para você. bjs_II



Escrito por amita às 08h51
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'shimmering' by pollock

Improvisando liberdade

 

O que define “música” afinal? Uma ordem pré-determinada e sempre conhecida de  estímulos sonoros ou a total ausência deles? Uma seqüência formal de ritmo, melodia e harmonia? O ouvinte e suas características sócio-cultural-psicológicas (claro, não seria um texto meu se eu não citasse essa última) que conferem repertório de audição mais ou menos fina?

NDA. Porque não é preciso seguir uma ordem estabelecida, rodeada de postulados; porque não existem apenas 12 tons, há mais sons que os audíveis para os seres humanos em CNTP; porque música é freqüência que atinge a alma, a cabeça, o coração e as outras tantas vísceras, muitas vezes todas ao mesmo tempo. E essa tal freqüência vem de fora e/ ou de dentro de mim, agora, transforma aceleração, velocidade, temperatura, massa e volume, tem poder de mudança de intenção kármica.

Pra mim música implica acima de tudo em liberdade de ouvir, ouvir a mim mesma, ouvir abertamente, ouvir antes de mais nada. Música é como prazer, não tem a menor razão de ser se ficar somente na teoria. O prazer de ouvir é assim orgasmático, sei que você concorda comigo, e música existe para ser ouvida, mesmo que seja só por você. Cada um sabe bem o que fazer pra sentir prazer, e há mais formas que a gente pensa e conhece, sempre novas, é questão de volição, disposição interna pra estar feliz,
e felicidade dispensa preconceito.

 

No domingo passado vivi um episódio lindo e livre que traduz isso tudo. Os diretamente responsáveis por ele são 3 caras que certamente entendem e provavelmente concordam com o que eu digo aqui. Celio Barros, Jorge Peña e Yuri Pinheiro, pilotos dessa aeronave na qual embarquei, voando pelo som amarrado livremente que produziam naquela casa, uma vez do eletricista, hoje de todos nós. Foi vôo livre, alto, de rota inédita , desobstruída e o destino não tinha a mínima importância. Tudo às claras, decidido ali, na hora, por eles e por todos que de algum jeito fizemos a nave pesar para um lado ou outro.

Improvisação livre no auge da liberdade de três músicos impecável e amorosamente unidos, três almas grandes, muitas vezes aumentadas ao tocarem / se tocarem. Nas cordas delicadamente preparadas do seu contrabaixo imponente e superior per si, Celio fazia acrobacias além desse planeta e galáxia, traçando no braço o mapa astral do passado, ali presente no futuro, o sempre impermanente.  Jorge percussionava luz, ar, água, vácuo, até o infinito, com olhos brilhantes e sábios do que vêem e do que não. Yuri nitidamente soprava sorrindo seu coração pra fora e na volta trazia um pedaço do meu. Muitos pés acima das nuvens, bem além do pôr-do-sol sensacionalmente projetado pela natureza, na chegada aterrisagem perfeita com gostinho de quero muito mais.  Se você quiser viajar com eles, os próximos vôos saem nos domingos 26. 09, 31.09 e 10.10, às 18.00, partida do aeroporto Casa das Caldeiras - Av Francisco Matarazzo , 2000, portão Casa do Eletricista, taxa especial de embarque R$ 10,00. obs: não precisa de visto, passaporte nem comprovante de vacina. Só de liberdade. Boa viagem. bjs_II_ 

 



Escrito por amita às 18h39
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fonte:
http://www.radioeldorado.com.br/fm/PremioVisa/index.htm

 

(Re)começou chorare

 

Choro. Choro com facilidade. Choro muito. Choro de verdade. Choro de coração.Choro de soluçar, às vezes. Choro de cor. Choro em rondó.Choro de cordas e sopros. Choro sempre emocionada. Choro de ontem, noite paulistana.

Choro dos Danilos. Do Penteado carinhoso, meu favorito por afinidade, com sua baixaria plugada e os batutas elétricos Muller, Lobo, Rosa, harmonizando, gato, canário, e Chiquinha. Do Brito, brasileirinho chorão, “inho” porque é ainda tão menino “ão” porque toca pra valer, que é do que há de mais divino com seu bandolim vencedor picando o choro da saudade.

Choramos todos o Choro do amoroso Callado, e do Nazareth sofisticado, do rei Radamés, da destemida Chiquinha, do grandioso Pixinguinha, verdadeiro mestre daquele, deste e de todos os tempos, das duas contas do Garoto que foi precoce, do professor Luperce que orientou Jacob fazer seu doce de côco, de Tom, Hermeto, Egberto e até Lyle Mays. Choro de acari de Luciana Rabello e Maurício Carrilho. Choro que dá nó em pingo d’água, que tira a poeira, choronas choram o choro de Holanda onde há mil tons.

 

Choramos todos as notas que voam de um coração ao outro, entrando por ouvidos quase virgens desse som autenticamente nosso, desse lugar tão cheio de contrastes, da gente que não sofre porque quer,que chora baixinho, mas que, remexendo nesse treme-treme, vai vivendo mesmo com fogo na roupa, cochichando seus lamentos, beliscando um pedacinho do céu, da gente tico-tico no fubá que mistura samba, polca, valsa e manda bem em tudo que faz, da gente cheia de chifra e seu jeitão brejeiro e assanhado. Choro só faz bem. Chore mais. Chore com freqüência. Se você é daqueles que chora pouco, está na hora de desobstruir seu canal lacrimal musical e chorar de peito aberto sem preconceito, porque esse último é ignorância, a maior causa do sofrimento humano. Como tu não é besta nem masoquista, chore seu choro chorado!! bjs_II_

ps: para saber mais explicitamente, leia o post maravilhoso do Zé no www.sovacodecobra.com.br   

 



Escrito por amita às 15h58
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