Ouvido Absoluto

 

Voices inside my head,Echoes of things that you said (The Police, Zenyatta Mondatta, 1980). Essa está em círculo  no meu córtex. Porque tem dias - sinceramente, quase todos- que me sinto assim: um retorno (não como o que fazia falta pro Tim), um par de fones, desses que ganhei faz pouco tempo e que são perfeitos pra diminuir a distância entre o que ouço e o que sinto.
Adoro fones porque focalizo, potencializo minha relação quase simbiótica, estabilizo meu Chi. O mesmo é quando ouço quem me diz, uso meus fones internos, ainda mais perfeitos. E não digo isso por causa desse dom inato e desenvolvido do meu ouvido absoluto. Digo porque gosto de ouvir, então faço com prazer, amor, e o máximo de dedicação. Claro, com música não é diferente. Sou daquelas curiosas em ouvir tudo
e todos. Minha natureza é auditiva e assim é meu coração,meu cérebro, meu corpo. Tudo me mim ouve e os sons que vibram são reorganizados e retransmitidos em super-dolby, quase como fazia Beethoven que, ao contrário do que dizem, ouvia sim, ouvia por dentro e assim redistribuía sua música, um conceito de reciclagem.
Diariamente ouço incontáveis sons, todos especiais e orgânicos, cada um com sua (des)harmonia particular. Minha atenção é dirigida ao todo e ao detalhes, aos instrumentos de escolha, introdução, linearidade presente/ausente, compasso, cadência, melodia, escalas.
Não me encaixo na teoria sobre os tipos de ouvinte de Theodor Adorno, um tanto reducionista. Meus ouvidos afinados, puros  e sintonizados em Ravi Shankar, são os mesmos para Charlie Parker, Michael Hedges, Chico Buarque, Brahms, Ali Farka, Paulo, Andrei, Maurício, Erica, Zantwyk, Ana, Manoel... Audição total e absoluta. Portanto quando falo que música pra mim é tudo, fica óbvio que escolhi a coisa certa.

Você também? Que som preenche seus fones hoje?
bjs sonoros _II_

 



Escrito por amita às 09h23
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O Mestre do Pizza

 

 “I’d like to be like him” ….respondeu quando não quis se sentar no banquinho mais alto que a cadeira onde o outro sentaria. Mas na verdade ele não se referia (somente) à diferença de altura entre os assentos, apesar da sua humildade,elegância e polidez. Ele foi literal : “I’d like to be like him”. “He does all those crazy things by himself and I need four other people to help me. It’s not fair!”. Eu, sentada bem na primeira fileira, bem na frente dele, olhei e disse de boca cheia (sem som algum, estou disfônica, de novo), cheia de emoção e convicção que meus ouvidos hiper sensíveis me garantem: “so true”. Ele me leu, atestou com o olhar de quem sabe que estamos muito distantes do mestre precioso, agricultor master da música pura, sem agrotóxico, que só faz bem, faz crescer e ficar forte.  

Encontro magnífico, resplandecente, verdadeiro samadhi aconteceu ontem entre John Pizzarelli (,eu,)  e Toninho Horta.

Do primeiro ainda não tinha falado aqui, mas te conto que ele é simples, competente nos solos limpos e bem feitos apesar de previsíveis, de postura gentil, carismático, sorriso genuíno. A distância curtíssima me deixava ver seus olhos inundados, como os meus, adorando seu herói e referência ali tão perto e acessível,com quem já tinha tocado até em casa, com o pai, seu primeiro modelo e herói na vida e na música. Mas desta vez  envolvido de gente da terra de Horta e de Tom, presente em alma e sangue do neto, Jobim também na atitude low profile, tímido,lindo e sabedor da sua causa.

Toninho, ou para o Jackson do Pandeiro “aquele rapaz de ventas finas e mãos como pés de galinha” por causa dos acordes abertos,largos, das cordas soltas, chega carinhoso, e eu taquicárdica, com seu beijo partido, que nem desta vez eu roubei, deixei ficar na a fantasia. Segue no seu caminho audaz, eu nem pisco nem movo, mal respiro pra só ouvir o que vem dele. A destreza do tempo, divide como ninguém, mas divide tudo com todos, até a sua espera por Ângela com  que John traz suas 7 cordas, seu irmão Martin no baixo acústico, Paulinho Braga e seu “little drum”  e Daniel Jobim pra juntos fazerem companhia. Quem chega mesmo é aquela garota, a mais cheia de graça e de fama internacional, ela vem bilíngüe e com seu balanço macio, reverbera as cordas cantadas do John, suaviza a já suave voz do Daniel e do adolescente sentado bem do meu lado, encantado com tanta emoção provavelmente inédita.Sempre é.E foi mesmo um instante de tons e sub-tons, eterno de certezas da minha significância pequena mas afetiva ao máximo, dos meus tantos acordes e arranjos, desarranjos reparados, reformados,  desaguando nas águas de verão, de inverno, que resumem all those things, as que eu sinto e que são ditas, as que não, as sobre mim, de dentro,de cor,  que te comunico quando toco, ouço,calo, falo. Nesse Horta colhi mais luz de som, substrato da minha existência, que me nutre primitivamente, somei minha música a dele e seu encantador fã explícito, “He’s my hero! What can one play after his music?” ,  e emocionado com o privilégio  dessa tarde, transformadora da vida.
Na intenção da maioria , Pizzarelli era o pocket show. Pra mim, e pra ele mesmo, não. Ele é auxílio mais que muito luxuoso pra quem não requer nada além de seus 10-que parecem mais-dedos e algumas cordas pra fluir infinitas opções harmônicas de brilho cintilante, melódicas refinadas, soluções criativas nas passagens mais banais onde entre  E7 e A existem mais de 10 atalhos,

todos  surpreendentes, e instigantes, que fazem  Caymi ter saudade de Minas no arranjo da bagagem invejável da concepção do tempo, partido e louco como o beijo, onde eu faço toda a fé, sem lucidez, escondida pela insanidade que me salva e me liberta,me faz comum, me tira a voz porque falar sobre Toninho Horta é dizer muito pouco. Tocar é tentativa de dizer. Sentir diz tudo. E ontem senti tudo em dobro.Tudo em digital delay. Por mim e por você, como deve ser.bjs (partidos) _II_  

 



Escrito por amita às 08h46
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Filosofando em D menor

Fim de semana bem parado por fora mas de uma dinâmica absolutamente intensa por dentro. Minha cabeça ainda bastante atordoada pela revisita a Platão, Erickson, Freud por Calligaris, mergulhou em movimento agudo e incessante  de introspecção, fruto da visão moderna da subjetividade, e é essa última que me descreve. Eu, que me interesso pelos porquês e comos , sempre mais particular do que geral.
Noite de sábado adentro , Rachmaninoff
ficou ecoando alto, looping no meu córtex auditivo com seu Concerto No 3 para Piano em D Menor me encheu de prazer .  Fui às tantas vezes que o ouvi pelas mãos da minha nonna, ou na sala de casa, ou mais recentemente em audição radiofônica de surpresa Concerto mega difícil de executar, magnífico de se ouvir, de verve dramática e melancólica, densa. Passam-se horas, as teclas insistem em trechos inteiros. Chega o domingo e o sentimento meio nostálgico, pela lembrança da nonna, como meu pai, fundamental na minha introdução e adoração pela música, meio ensimesmado,  pela avalanche de pensamentos acerca da subjetividade, permanece. Fim da noite e me deparo com a vida acordada por experiência imagética movimentada. Arte e técnica de animação impecáveis, argumento inesperada e profundamente filosófico, repleto de todos aqueles muitos questionamentos viscerais que habitavam minha vida até minutos antes, atingindo grau máximo na escala vindaloo. E a trilha sonora..... desbundante, de fazer chorar, de arrepiar, de contrair as fibras dos músculos lisos, escarlatear meu sangue, elevar à enésima potência o número de sinapses, potencializar nível de neurotransmissores.
Waking Life traz na música uma porrada elegante, urgente, feita de angústia e testa franzida, marcada por compassos entremeados por solos em meios tons, encontro desencontrado de cordas, embaralhando o real e o onírico, matrix sofisticado discutindo o relativo e o  absoluto. Tango reinventado por Tosca Tango Orchestra, que de tosca nada tem, liderada por Glover Gill, um fanático sabedor do gênero, representante qualificado de Buenos Aires em Austin, (believe it or not, um pianista original do Texas). O clima na mescla refinada que Glover faz entre Morricone e Piazzola. Glover sabe compor para decompor, silenciar e deixar o som do nada tão alto para se ouvir dormindo, tão fundo até o pesado do r.e.m. , tão doce que não deixa acordar do sonho bom.
Dito isso fica muito fácil imaginar a viagem inevitavelmente garantida, daquelas que se quer perpetuar apesar ou por causa das incertezas sobre destino. O lirismo emocional, a sensibilidade devastadoramente apaixonada, untam a forma, fazem a massa como ingredientes principais da receita bem acabada e deliciosa da Tosca Tango Orchestra.
Ao final da exibição saio mais Amita Padma. Ainda mais certa de que sei tão pouco sobre tudo,
e de que Rachmaninoff está dentro de mim tanto quanto Tchaikovsky, Zé Miguel Visnik, Eric Fromm, Heidegger , de que ao abrir do bandoneón meu coração pula e se despe por inteiro sem vergonha nem medo da minha existência, evidente a olhos e ouvidos nus. Esse filme me deu o privilégio de conhecer um grupo novo que faz música de sempre com
muita modernidade e competência, e uma alternativa de como dizer o que conheço com mais clareza. Amita de sempre reinventada mil vezes. Como todos os dias. Porque é assim que deve ser. bjs_II_

 



Escrito por amita às 00h46
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