Crossed ways

 

Meus caminhos são muitos, todos eles de verdade. Dedicação não me falta pra tirar o melhor som possível - mesmo quando as cordas não são muito novas ou boas, ou quando o instrumento é feito de madeira meia boca - pra fazer um acorde novo, de susto.
Elemento surpresa, aliás, é sinal de vida, na própria e na música. E uma que coisa belisca meus ouvidos é um arranjo bom.  Um jeito novo de cruzar as notas que se tocam, se esbarram, se encontram em vias não muito exploradas, por falta de competência, medo de arriscar.  Afinal, atrever-se exige muita segurança, e mostrar uma versão nova é sinônimo de ter peito pra dar a partitura pra bater. Arranjar é um processo delicado. É organizar infinitos sons, respeitar possibilidades realmente viáveis de técnica e estética. Nem sempre o cruzamento leva a algum lugar,de vez em quando você até cai em ruas sem saída, moquifos fétidos e escuros, verdadeiras crossroads
(e antes que vc me fale sobre o filme, esse sim caiu numa encruzilhada de blusera forte e boa, gosto um monte).
Incontáveis sons cruzam a minha cabeça todo dia, chegam de todo os lugares, do rádio, ao vivo, de CD recém adquirido, emprestado, da minha escova de dentes à pilha que faz som de
Dijereedo na minha boca, da geladeira que é semi-tonada, a coitada, da tosse do vizinho de caixa torácica avantajada. Ouço tudo com facilidade, com atenção emocional, na música e na gente que entra em mim. Algumas ficam por um tempo, cruzam com minha música própria, me deixam ou as deixo. Outras ficam, se aconchegam no canto que reservo exclusivamente porque quero, preciso, delas me nutro, nelas me reinvento, reinterpreto.

Essa faz dois dias que entrou com tudo. E tem procedência e qualidade incontestáveis, conferida por mim há anos, por isso dei passe livre de prima. Grande Dimi, arranjo impecável, arrepiante, de parar o tempo, Simoninha, voz,veludo, cristal. Esses. S de Samba. S de sensibilidade. Orgulhosamente toco pra você, que cruza o meu caminho aqui de perto, lá de longe. bjs_II_

 



Escrito por amita às 08h40
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collage by Amita

Fenomenologia do som

 

O que faz com que eu ouça o mundo de maneira diferente de você?Como me ouvir e ouvir o mundo, e por que?

Eu sinto-penso a música como forma superior de linguagem,  elemento comunicador, via de relação, de fazer laços, de mim comigo mesma, com você, você que toca, você que ouve. O ponto em comum entre aqueles que tocam verdadeiramente é saber ouvir. E quanto mais a gente ouve com solidariedade comprometimento, melhor a gente se percebe no mundo, e dele seus sinais de som e ruído e ausência de. Imagine que tipo de fenômeno acontece quando grandes mentes - almas musicais se juntam! E ainda mais quando esses caras escrevem a música que respiram.

E juntos tocam a materializam música que cada um pensou. Vivi esse exemplo máximo de generosidade e troca no sábado.

The Jazz Composers Collective. Um grupo de compositores que em 1992 faz uma ONG em NY para desenvolver projetos de jazz em que os integrantes podem experimentar novas maneiras de fazer música. Fui tomada por eles completamente na sala do teatro Santa Cruz (com layout de teatro mesmo). Ben Allison, seu baixo magnânimo, seu sorriso de cabelos espetados, dirige o som com Michael Blake soprando vento tenor e soprano, às vezes ao mesmo tempo, Frank Kimbrough de harmônicos preparados em teclas e cordas, Jeff Ballard e suas peles multiraciais, Balla Tounkara, kora sonora de mil e uma cordas.
Abrem com Third Rail, alternativa incomum, ambiência misteriosa, nuances de azul noite onde Duke Ellington sobrevoa liso e bonito, cartão de metrô dobrado dobrando o baixo num vai-vem lírico, inebriante. Pé direito alto, teto retrátil do pensamento convida Thelonious, Bird Egberto. Eu, maravilhada em círculos.
Slap Happy chega e eu não mais no chão, estilingadas sedutoras orientam a minha rota, estou em casa, território re-conhecido, coração pulsante, boca seca, felicidade nos poros. Muitas mãos. Um só som. Iluminação intersubjetiva, reflexo da  amplitude da sabedoria da troca onde tudo é um, um é tudo.Envolvida em acordes feitos de ar, de água, claro-escuro se misturando lentamente

Um véu fluido apaixonadamente único, particular. Ligação direta, desapego e humildade deles todos, em particular do Ben Allison, o nome já diz sua origem e missão. The Jazz Composers Collective: Lição para ouvir mais, ouvir melhor, observar som de dentro, som de fora, som essência, som existência. bjs_II_

 

ps: Tem UOL THAT JAZZ  edição super especial com muito mais. Mergulha lá.

 



Escrito por amita às 09h16
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Subitamente Pimenta

 

Número e intensidade de sinapses aumenta dramaticamente. Como a tal da adormecida, despertada com um balde de ânimo, um beijo na boca cinematográfico, de virar o pescoço em 360 graus,no quarto de dentro cortina, persiana , vidros escancarados de uma vez só, sem dó nem medo, ampli à toda. Tudo urgente, súbito e afiado. Chega sem avisar. Como deve ser.Toda vez é assim. Fico completamente atrapalhada quando essa mulher chega, rindo à toa, envolvida naquele baixo bordado à mão com linha de ouro, acabamento da percussa cacheada, cravejando sua coroa com pedrinhas de brilhante, que de falso não tem nada, decorando sua música quente e ardida.

Vinícius deu o apelido de Pimentinha porque a pequena tinha presença, firme e forte. Nem homem, nem pai, nem mãe, nem filho, ninguém passava na frente dela quando o assunto era cantar. E ela tem feito parte da minha receita nesses anos todos, mais dos que ela ficou por aqui,

Nos últimos dias tenho ouvido esse som, (Ela, 1971) mas só hoje consegui publicar pra dividir contigo. Agora entendi tudo. 

Elis, literamente rainha, Vindaloo de primeira.  bjs_II_

 

 

ps 1: sorry. até a hora de postar não consegui saber exatamente quem é o dono do baixo que me descabela toda - achei que fosse o

Luizão Maia, porque é a levada dele. Mas Simoninha manda recado que não é,  pq é do período do Menescal.

E no encarte do CD, claro, não tem a ficha técnica, o que eu acho deplorável e criminoso. Minha versão em vinil expirou faz tempo.

Se você souber, conte pra gente.

ps 2:  esse post vai pra vc, que especialmente hoje me deixou mais feliz, indeed.

 



Escrito por amita às 17h54
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