Invertendo a dominância

 

Nada vem do nada, ou tudo vem de 1972, Poço Fundo, ele sem fundo no alto do morro, o projeto da casa, pedaço de pau, pedra, vão, viga, promessa de vida, teu coração, caco de vidro, anzol, corpo na cama, a vida, a morte.

De saída, dissimula, seduz com seu jogo marcado, vai-não-vai, tônica ou não. Chega invertido com seu jeito hábil superior,seu mistério profundo e simples, começando antes de começar, anunciando as águas, pingando em prata brilhante, em corpo cansado fazendo lama, chovendo em quem não mais é, João, José, na chita  costurando com agulha de ouro, reluzente, como a de  Schumann, Chopin, Nazareth e Villa.Mas a dele é customizada,só borda com seus dedos, os mesmos que se desvirginaram pelas teclas do primeiro piano, de pé, por causa materna, aprovado por Koellreutter.

E desde sempre das falanges brotam, proliferam jardins botânicos mesmo se a semente for comum, o solo arenoso,cinza de charuto.

Tudo cresce. Segundas menores pra cima, dominantes com sétimas pra baixo, enfileiradas, intercaladas cromática e diatonicamente, em ternos ternários, binários. Ele resolve mas não fecha, deixa brecha.  

Tom foi faz 10 anos, hoje, mas não irá nunca porque o fim do caminho é o (re)começo.

Namaste com reverências, prostrações, incenso de sândalo, perfume de jasmim, tapete de flor de lótus,
e como bem disse o Chico, "o samba mais bonito do mundo".  bjs em Tom _II_  

 

ps:. ”Três canções de Tom Jobim”, de Lorenzo Mammi, Arthur Nestrovski e Luiz Tatit” homenagem apaixonante, letras de qualidade sobre a música divina.

 



Escrito por amita às 13h48
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Quando 3 é 1

 

A maioria esmagadora dos outros ouvidos não estava sintonizada naquela frequência, e sim numa performance guitarrística, como um show de aeróbica de um cara que parecia dar mais valor à chapinha feita nos cabelos, seus solos sempre iguais, variações da mesma nota ao longo do braço. Não vou perder nosso tempo com ele. Muita gente já fez isso, com outro teor, é verdade. Ainda bem q o Zappa não está mais aqui.
Então foi preciso ser mais precisa na minha audição para ser abduzida, sons limpos, longos, clínicos, desapegados, como um véu semi -transparente me envolvendo, um quase anestésico que entorpecidamente paralisa meu pensamento, congela sinapses e eu vou.
Um verdadeiro acontecimento sem precedentes nesse lado do Atlântico, o rei do vermelho injetou em mim seu frippertronics, sua expressividade notória, veiculando novos significados a cada nota soada, loopando sem cansar sua inteligência tímida e frágil.
Sábado. G3=G1. Vivi ao vivo essa emoção gerada por essa personalidade musical ímpar, um cara anos luz na frente, além da competência técnica indiscutível. um desprendimento invejável talvez por isso incompreensível facilmente.
Robert Fripp. A estrela da noite com sua dificuldade social sabida e evidente em interagir, experimenta o espaço com sua música mais que bela, hipnotizante, etérea, vasta e econômica, um absurdo de tão forte.
Música pra se maravilhar, música solitária de criatividade que muda curso, forma, cheiro, oposta e despreocupada com moldes, aplausos, vendas. Música pra ficar emocionada, tocada, ouvida, silenciosamente plácida. Música de alto-risco. Música nada feijão-com-arroz. Música Vindaloo.

Sempre virado ao avesso, na direção oposta, na estrada menos rodada, Fripp confunde com seus conceitos inusitados, sua indagação sobre as ondas continuadamente oscilantes e prova que equilíbrio não é estático.
Que essa pitada que te trago hoje deslize seda azul ouvidos adentro pra tingir seus sussurros brilhantes e preencher cada vão.
Permita-me-se bjs_II_
 

 



Escrito por amita às 23h42
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The kiss by Rodin

O outro lado da sombra

 

Escolher não é fácil, muito menos simples.
Se escolho fazer um acorde, ao mesmo tempo não escolho todos os outros. A escolha de ouvir um CD, uma faixa, inteira ou parte,
é diretamente proporcional a negar as outras infinitas alternativas naquele instante.
Decidir é como um split, é dividir-se. Abrir mão. Abrir a mão. Abrir coração e ouvidos. Ouvido esquerdo pra ouvir direito. Ouvir direto de dentro.

No dentro de mim sons recorrentes, brotam diariamente como que do todo.
Por exemplo, esse aqui com ela.Meu todo tem o nome dela tatuado bem grande. Ela é quase eu. Me diz muito do que sou.
Outros carimbados com a mesma tinta permanente e rara, nessa, vêm fu(o)didos-fundidos nela,
delícia como beijo na boca,
um stamp coletivo. 
E eu, pra sempre seduzida, mil prostrações por dia, devota fiel que sou, me entrego, inteira e partes. Todos os dias.

Hoje escolho tocar especialmente pra você, um pedacinho do outro lado da sombra. bjs _II



Escrito por amita às 08h33
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