by Amita Padma

Ninguém Mais

 

 

Tudo paralisa, qualquer movimento externo ou interno, meu plasma pára de correr, até meu pensamento fica em stand by 
em função do poder incontestável e absoluto que ele tem sobre mim.
Impressionante como ele tem caminhos tortuosos e envolventes pra atingir uma nota que nunca é a dos outros, vem só dele,
é escala particular e exclusiva, faz qualquer um / uma cair de quatro pelo som onírico que a boca melancolicamente sopra pra
dentro de mim, me estilhaça e preenche de prazer celular.
Já esteve aqui antes e falar dele é cada vez mais improdutivo, inalcançável, mas hoje aumento o som pra você ouvir e gozar explicitamente num namoro libidinoso e ímpar com ninguém mais que Miles Davis.
bjs_II_
  

 



Escrito por amita às 09h16
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Mosaico - todas as partes

 

Início de ano, de dia, de post, de hora, tanto faz, é sempre o mesmo conceito. É como tirar um som com primeiro puxão nas cordas,

da água caindo na pia, do fechar dos brincos, do café preto e forte  descendo pela minha garganta,  e me deixar que  daí pode vir

um tema, uma estrofe, uma linha, uma peça, um arranjo.

Penso, faço planos pra arranjar, ousar no tempo trocar o tom, a cadência. Não gosto de radicalismo, não me dou bem com isso, sou dada à novidades e descobertas, outras maneiras de tocar, de ouvir, de pausar, de respirar, de dizer, experimento tudo porque não tenho medo, como esse cara aqui, de atitude vindaloo, reinventava, mudava a roupa, no lugar do sal usava pimenta e why not?, virava tudo de ponta cabeça, até a própria vida, transformava galinha na rainha mais bonita, mais gostosa , irresistível. 
Jaco sempre vinha com uma surpresa,
um jeitão novo de estilingar e fazer bater em mim o que dele era o melhor, o máximo ! 


Às vezes guardo um acorde pra usar num lugar menos provável, ou deixo que ele se encaixe naturalmente para onde parece ter nascido e cai como uma luva, daquelas até acima dos cotovelos, feita de cetim, quase sexy. Igualmente, num procedimento Lavoisierano, o viro pelo avesso, destroço, desfio, mordo, mastigo, dichavo, até que ele nem seja reconhecido por sua origem e desapareça. Recolho alguns que cabem em mim tão direitinho, escorregam como que feitos por medida e deles me aproprio com muita intimidade, faço som do ruído do ar-condicionado ao barulho do scanner, e minha música em oitavas acima, abaixo, à frente, atrás, passeia com o mesmo prazer em clave de G, de F, de C.

Eu, assim, junto os pedaços, não necessariamente as partes do todo quebrado, aproximo peças de mundos desconhecidos sem obedecer tempo, tonalidade ou regente, colo pedacinhos com cola de sapateiro ou goma arábica, faço raga com guitarra, reggae com tabla, na mão esquerda uns acordes, na direita o batimento cardíaco, e faço do meu dia um mosaico, uma mandala que, depois de pronta, assopro toda pra começar outra. bjs _II_

 



Escrito por amita às 00h45
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Começando o novo

 

De dentro, o mar em decibéis muitas vezes multiplicados, aumentados reverberando por tubas gigantescas, tambores, graves aterrorizantes, bemóis perversos, agudos estridentes, escalas incompreensíveis, arpejos indomáveis, engolindo e desarranjando 2004 para sempre.

Mais de 150 mil notas, semi-breves, semínimas, colcheias vazias, sonatas, ragas perdidas, canções, acordes incompletos, operetas e óperas desfalcadas, sinfonias inacabadas, peças, choros, sambas de roda, de enredo sem cadência, jingles, vinhetas, harmônicos, palhetas lascadas, cordas, teclas mudas, peles rasgadas, madeiras empenadas, metais, tudo destruído pelo volume ensurdecedor, fatal.

Outras tantas 6 milhões de notas soam agora roucas, em falsetes fracos, não dobram, nem vibram ou brilham, nem primas e bordões, metais enferrujados, nem métrica, nem melodia, nem harmonia, até o silêncio não soa.

De cima, a terra desafinou terrivelmente por cima do Mau Sacht, amigo querido que de tão doce se entregou de pronto, na frente, na defesa e proteção dos outros que aqui ficam e mais do que nunca aplaudem de pé sua música cheia de competência, seu coração melhor, seu sorriso de menino. Tentamos pedir bis, mas é fato, que nada será como foi,  tudo impermanece, falta grande, pausa descabida.

2005 entrou atravessando, errando no compasso e na rima, semi-tonou feio. Aracy não daria nem um mango.

Mas pra estar aqui por inteiro a gente tem que reinventar a música , tocar com outros dedos, cantar com outras línguas, dançar outra dança, mesmo que de início a gente pise no pé, chute canelas.

Com o tempo, tudo vai. Com amor, dedicação e tempo, você  descobre e reconhece seu swara, que é o tom que pode soar e ressoar por si próprio, o verdadeiro som que vem de dentro, e aí sim vai ser iluminado igualzinho ao Buddha Shakyamuni.
Mau Sacht com certeza já encontrou o dele que deve ser lindo,  samadhi, perfeito nirvana.

Quero pra vc, pra mim, um ano real e feliz, então vou acertando a afinação (sabe como é, corda nova) que estou de volta e enquanto houver, aqui contigo.

Namaste  bjs _II_ 

 



Escrito por amita às 09h14
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