by takao mayakaku

Pass no coração

 

Por influência dele comecei a amplificar meu ouvido acústico, sentindo que as notas que vinham dos dedos podiam ter mais volume e corpo sem desarmonizar, sem perder a fluidez melódica

Atrás do corpo de madeira e do jeito low profile, soava sua alma em continuum, com soluções finamente inesperadas, seu improviso singular, múltiplo que substituiu a droga de fora pela de dentro, muito mais poderosa da qual também sou cúmplice.

Introvertido por natureza, consumia os detalhes, os cantinhos dos acordes, procurava pecinhas perdidas embaixo das escalas, e só trazia pérolas, gemas polidas, ouro branco. Levada suave mesmo quando enfileirava uma séria de notas de tirar o fôlego ( muitas vezes não consigo cantar em cima dos solos), e de me deixar de boca e braços abertos até agora.

E eu desde sempre me deliciando pelo talento e carinho das suas mãos de unhas médias, um dos segredos pra deixar o som delicadamente lindo, com aquela transparência cristal, fui crescendo nessa música introduzida pelo Al Donado, um cara com música tatuada nos poros.

Fã assumido do Wes e do Django, principal fonte do Pat, alguém que tem Pass no nome, só podia ultrapassar qualquer rio cheio de lama e sair inteiro, limpo. só pode ser do bem,

Fechando uma semana que foi meio fora de tom e do tempo, toco hoje Joe Pass, um talento de carreira tímida, amante fervoroso do Brasil, músico acima, além, maior, de grandiosidade celestial. Mãos como as dele como a dele don’t get around much anymore. bjs_II_

 

ps: Al, if not for you, my music wouldn’t be the same. Forever thankful!! This one goes for you, Joyce and all the family. It’s a real pity you don’t get around much anymore.

 



Escrito por amita às 08h16
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by Amita Padma

I Like Strange Fruits

 

Na curva da escada, nos degraus brancos, eu sentava pra que ela entrasse melhor, fazendo contrair meu estômago, estirpando as notas pela vida inteira,  trazendo coisas que eu nem tinha registro por fora mas que já se faziam tão minhas por dentro tamanha a similaridade em tantas das frases, especialmente as côncavas.

Foi amor à primeira escuta, aos 12 anos, e o encostar da agulha era o suficiente, coração na mão, lágrima nos olhos, só de ouvir a introdução lá estava eu, lânguida, absurdada, completamente envolta na sabedoria inculta dessa mulher que me ensinou sobre tudo, sem exceção.
A falta de técnica formal deixava soar a beleza rara que ela vibrava muitas vezes com esforço incomensurável naquela voz, quanto mais rouca  e suja, mais fina e profundamente me encantava.

 

Sim, esse é um depoimento apaixonado. Sem ela eu não seria nem metade que eu sou hoje, não saberia sofrer, nem amar, nem cantar. 
Morreu aos 44, mas viveu mil vezes isso, não desperdiçou  brilho ou dor, não deixou pra trás nenhuma gota, nenhum grama.

Visceral, ousada e carente de si mesma até o fim, e  tudo que ela queria era amar desmedidamente  e comer o frango frito, o melhor de todos, que sua mãe preparava.

 

De todas, te trago três

O amor do presente

O amor do futuro

O amor do quem sabe um dia

 

Ladies and gentlemen, com vocês a minha musa, a primeira mulher da minha vida, Lady Day, Billie Holiday.

bjs_II_

 

ps: Saber e ter prazer em elogiar é uma virtude que eu tenho. Não percam o especial especialíssimo do especialista Rodrigo Barradas no UOL THAT JAZZ, o melhor programa de jazz online da Internet, sobre a Biilie que teria feito 90 anos em 7 de abril. Palavra de Amita Vindaloo Padma

http://musica.uol.com.br/radiouol/uolthatjazz.jhtm

 



Escrito por amita às 11h08
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by ph_amita

Meus segundos em terceiros

 

Aceito a entrada lenta e constante, viagem secreta pro centro, música licorosa, rompendo a barreira da minha pele.
Devagar vai se espalhando fluida meio aos líquidos, dando corpo à massa, esculpindo nos ossos. Como num transe, olhos fechados, sou levada não sei onde, um gosto de surpresa, de fruta, um ménage à trois me guia, sussurrando nos ouvidos, testando minha sensibilidade com estímulos hipnotizantes, agridoces, canela e pimenta. Sedução arrasadora e sem erro resulta em entrega fácil e sem medo.
Um me faz grave, rouca, com seu cheiro de madeira  finca suas cordas insistentes no meu paito, o outro traz delicadeza turquesa  nas mãos que passeiam sem resistência reconhecendo meu oriente-ocidente, o terceiro me pega pela boca com seu sopro melódico, cheio de nervuras, viela e becos, potes de chá.
Ao vivo, onze vezes, onze percursos ovais, e  não me canso, quero mais e tudo pra orientar.
Experimenta um golinho só e me diz assim, se Dave Holland, Anouar Brahem e John Surnam, não valem todas.
bjs_II_ 

 



Escrito por amita às 17h34
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